domingo, 26 de agosto de 2001

Solidariedade


       Há também um aspecto que ressalta no livro: a solidariedade. Todos ajudavam o Louco, os diversos personagens que transitam em seu redor  dão lhe  abrigo,  alimentam-no. Isso foi escrito por um homem que era profundamente humanitário, cuja ternura estendia-se da família até aos animais domésticos.  Cecília Machado Bordini. (Correspondência). 

              O livro é muito lindo e, sem dúvida, dignos de nota, por inusuais na época em que foi escrito, os seus recursos narrativos, presentes nessa estrutura de quadros breves, nessa história sem heróis, nessas zonas de sombra, nessa agilidade de ritmo, nesses pequenos enredos que vão se acoplando ao relato principal. E, como soe acontecer com todas as grandes obras, todo um mundo nela contido possui significados que o estudo dos personagens, do tempo e do espaço romanesco e do enredo oferece, sempre, motivos para as tentativas de decifrá-la mais profundamente. É’ o segundo romance de Dyonélio Machado, O Louco do Cati, publicado pela Globo de Porto Alegre, em 1942. Em cinco partes, se agrupam setenta e dois quadros que relatam a viagem do Maluco – assim o chamam os demais personagens – que é levado por Norberto, de Porto Alegre para um passeio no litoral que circunstâncias adversas prolongam até o Rio de Janeiro de onde vai sendo trazido de volta para o Sul até chegar aos campos de Quaraí onde nascera.

            O Maluco (ou Louco ou Cati ou de muitas outros maneiras com que é designado), não é dono de seu destino e, ao longo  dessa aventura na qual é envolvido,  se entrega, docilmente, ao arbítrio alheio. Quase sem falar, quase sem sorrir (algo desligado, longe e alheio a tudo, diria dele muitos anos depois o seu criador), tendo de seu, apenas o medo do Cati, essa prisão a céu aberto onde, sob o comando de João Francisco Pereira de Souza, a título de anular possíveis contendores, eram freqüentes as degolas. Se, lampejos de lembranças – o momento em que saiu de casa, de madrugada, numa despedida de menino; esse outro em que viu uns índios descalços, amarrados uns aos outros pelo pescoço, prisioneiros de um Tenente do Cati; aquele em que chega na casa de um velho parente; ainda e sempre, perceber o medo que inspirava o Cati; –  dizem algo de seu passado.O presente em que vive é esse contínuo  trocar de dono: os que dele se encarregam, um após o outro, para fazê-lo cumprir o itinerário que presumem ser o seu.

            No primeiro capítulo que tem como sugestivo título “A primeira aventura foi no bonde” a passagem acaba por lhe ser perdoada diante da moeda falsa que apresenta. Logo, no armazém do fim da linha, ao querer cigarros, o dono do armazém aceita a tal moeda que não é suficiente, porém, para pagar os fósforos, o que ele parece não entender. Um rapaz que ali perto, sentado sobre um caixão de gasolina, conversava, se prontifica a dar a moeda que falta e, sem mais, o incorpora à curta viagem que programava com uns amigos. E com isso, o incorpora, também ao que irá lhe advir: a prisão em Araranguá e a transferência para Florianópolis e para o Rio de Janeiro. Sem culpa formal, suspeito político um, inocente o outro, lá ficam os dois por uns tempos na cadeia sem que se desfaçam os laços instituídos a partir do momento em que Norberto faz dele seu companheiro de viagem. De fato, dele, não irá se descuidar e, ao sair da prisão, procura um jeito de tirá-lo dali. A partir de então, acumulam-se os favores: um dos companheiros de prisão, posto em liberdade no mesmo dia que ele, paga-lhe o pernoite no hotel; depois, um rapaz de Alagoas, lhes consegue uma roupa e lugar para ele e Norberto dormirem. Como deve ser recambiado para o Sul, lhe obtém uma passagem e se dispõe a levá-lo a São Paulo. Mas, não podendo ir, a dona da pensão acha uma crueldade abandoná-lo, assim, em São Paulo e sugere que fique mais um tempo no Rio de Janeiro. Mais tarde, lhe conseguem passagem de navio para Florianópolis e algum dinheiro para o ônibus dali para diante. Embarcado, o recomendam a um dos passageiros que o toma sob seus cuidados: paga a diferença para que viaje na primeira classe, leva-o junto a São Paulo na escala que faz o navio em Santos e o reconduz de volta a fim de continuar a viagem. O médico do navio lhe dá um par de sapatos, o leva a passear em Florianópolis e pede ao comandante que o deixe passar a noite a bordo, pois só irá viajar no dia seguinte.  Antes, já havia ganho uma capa de borracha, já fora levado ao cinema. O motorista de caminhão que o leva para Lages o hospeda durante um mês e pede a conhecidos seus, que estão indo de carro para Caxias, que o levem junto. Um dos passageiros, coronel da fronteira, dele se encarrega e, juntos, viajam de trem para Santa Maria e para Santana. E é sob os seus auspícios que chega, de avião, nos campos de Quaraí.

            São pessoas que não o conhecem e, porque assim são solicitadas ou porque optam por isso, não se recusam a cuidar dele: há os que o alimentam, há os que o hospedam, os que lhe dão uma prenda de vestir ou calçar, os que lhe providenciam transporte.  Nada pedem em troca, o aceitando, assim, estranho e calado, sem lhe saber o nome, apenas que deve chegar a um destino, alhures. E o gesto de cada um se norteia, somente, por uma espontaneidade que não pede razões e vai tecendo uma corrente de solidariedade num mundo que está longe de ser exemplar.  E os ridículos desse mundo, suas mediocridades, suas fraquezas, suas injustiças, Dyonélio Machado não os elude. Assim, a comovente figura do Louco na sua ingênua confiança em relação ao outro e o outro, a habitar os tipos que desfilam perto dele e, surpreendentemente, honra essa confiança, são, na verdade, a afirmação do escritor gaúcho de que é possível aos humanos serem luminosos.

domingo, 19 de agosto de 2001

O engenho


Cana-de-açúcar,

Cana-de-açúcar,

Por que não adoças

O canavial?
Amargo mal. 
        Eliseo Porta e Alfredo Zitarroza
            Eram quatrocentos negros, trezentas negras e duzentos negrinhos. O que sobrara dos mil e quinhentos que trabalhavam na grande plantação de cana-de-açúcar, dominadas por um magnífico estabelecimento com seu aqueduto, vencendo as dificuldades do terreno para levar água aos moinhos que esmagam a cana, suas caldeiras e sua refinaria. E, pela elegante casa de moradia onde convivem, harmoniosamente, os tapetes ingleses, os móveis e os candelabros vindos da França e as gravuras e as curiosidades chinesas. É rodeada por um belo pomar de árvores carregadas de frutos, entre um jardim de muitas flores cujas espécies foram trazidas da Europa. Chama-se Villa Lavalle, o nome de seu proprietário, um antigo prefeito de Arequipa. Com a maior gentileza, se prontificou a mostrar a propriedade à visitante francesa, curiosa para ver a cana-de-açúcar, vislumbrada no Jardin des Plantes de Paris, crescer no seu habitat.


            Eram os últimos dias de Flora Tristan no Peru, onde fora em busca da herança paterna. Uma experiência em terra estranha sobremaneira adversa, pois a família não lhe reconheceu os direitos que julgava ter, mas, experiência que lhe deu matéria para um livro: Pérégrinations d’une paria (1833-1834), editado na França em 1838 e que a editora Mulheres de Florianópolis, juntamente com a EDUNISC de Santa Cruz do Sul, publicou no ano passado, numa tradução de Maria Nilda Pessoa e Paula Berinson. Flora Tristan não apenas registra os dissabores que teve com sua família e o cotidiano que viveu nesses meses passados em Arequipa e em Lima como faz reflexões ou emite opiniões quando os hábitos ou os fatos a surpreendem.

            Nessa visita a Villa Lavalle, se depara com o trabalho escravo. Não hesita em dizer a seu anfitrião o que pensa e o diálogo entre os dois é mais um testemunho da cupidez humana que, diante do desejo de riqueza, faz com que se anulem quaisquer princípios num reinado do absurdo a justificar todas as iniquidades e todos os crimes.

            Assim, Flora Tristan afirma o óbvio – o clima é saudável, portanto os negros deveriam ser saudáveis; a espécie humana cresce em meio a calamidades e os negros se multiplicariam se a sua existência fosse tolerável; a escravidão corrompe o homem; o tipo de escravidão na América excede o fardo de dor que foi dado ao homem suportar; se os produtos originados do trabalho escravo perdessem o valor, a escravidão sofreria felizes modificações; os proprietários não se satisfazem com o lucro de seus engenhos de açúcar, mas querem que esse lucro lhes permita fazer fortuna. E, aponta caminhos, não apenas, para dar fim à prática escravagista mas, também, para preparar os escravos para o uso da liberdade. Em resposta, escuta argumentos iguais a todos os que defendem o uso do trabalho escravo: as negras se deixam abortar ou não tem cuidados com os filhos; por preguiça, os negros deixam os filhos perecerem; os negros só trabalham sob a chibata; a escravidão, entre os povos de origem espanhola é mais suave do que em outras nações; a forma com que ela, Flora Tristan considera a escravidão, apenas mostra que tem bons sentimentos e muita imaginação. Termina, dizendo que para ele, um velho plantador, nenhuma das belas idéias que ouviu é realizável.

            Flora Tristan entende que falar com um velho plantador de cana-de-açúcar do Peru significa falar com um surdo e opta por dar um fim à conversa na qual o seu interlocutor não deixou de se mostrar afável e sempre disposto a continuar a mostrar-lhe os seus imensos domínios que se estendem ao longo do mar e ao longo dos extensos campos cultivados.

            Antes de partir, ao entardecer, Flora Tristan ainda pôde ver alguns negros com a expressão sombria, cruel e infeliz a trabalhar e, num calabouço, duas negras trancafiadas porque haviam deixado morrer os filhos, privando-os da amamentação. Estavam nuas e uma delas, jovem e muito bela fixou os olhos na visitante branca como a lhe dizer: Deixei meu filho morrer porque sabia que ele não seria livre como tu; e eu o preferi morto a escravo.

            Um universo desconhecido, mergulhado em trevas e em sofrimentos a fazer com que todas as palavras pareçam vãs.

domingo, 12 de agosto de 2001

Pensar a narrativa


            Em dezembro de 1997, se realizaram em Montevidéu, as jornadas sobre a vigência da obra de Horacio Quiroga. O evento, organizado pelo Departamento de Literatura Uruguaia e Latino-americana, reuniu vinte e sete especialistas cujos trabalhos foram reunidos num volume – Actas de las jornadas en homenaje a Horacio Quiroga,  publicados, sem data de edição, pela Universidade da República. Agrupados em seis tópicos (El texto revisitado, Quiroga y el cine, El tópico del amor, Constucciones teóricas, Sobre el Decálogo del Perfecto Cuentista, Otras aproximaciones) e, assinados por críticos, professores e escritores,  como soe e deve acontecer, se constituem estudos de diferentes textos de  Horacio Quiroga, que se abrigam sob enfoques metodológicos diversos. Um desses textos, de autoria de Carlos Liscano,  romancista com três livros publicados ( El método y otros juguetes carcelarios, 1987; Memórias de la guerra reciente, 1988; El camino de Ítaca ,1997)  tem  o interesse de entrelaçar as reflexões de um narrador com os postulados teóricos sobre a narrativa, de outro, no caso, exímio contista.Como introdução, uma breve epígrafe em que ele explica ser o seu trabalho feito de intuições, convicções  provisórias das quais estão ausentes as afirmações com o embasamento científico que sustenta o trabalho dos críticos.

            Nas primeiras linhas, Carlos Liscano reflete sobre o oficio de escrever que, segundo ele, está determinado pela invenção de si mesmo como escritor porque aquele que deseja escrever deve, necessariamente, inventar o escritor que pretende ser. O que significa a criação de uma pessoa que não existe, a sua voz, a obra que irá escrever e ser constante na realização do ser que inventou.

            A partir dessas premissas, é que irá comentar as reflexões sobre o ofício de escrever  que Horacio Quiroga registra  em três  textos: “Decálogo  del cuentista perfecto”, “La retórica del cuento”,  “Ante el tribunal”.

            O “Decálogo del cuentista perfecto”, 1927, que uma primeira leitura faz crer de extrema simplicidade, revela uma concepção do conto que vai além dos próprios limites literários.  Os quatro primeiros, se referem à arte em geral; os que seguem, aconselham a narrativa concisa, que abstraia enfeites estilísticos ou digressões; e nos dois últimos, torna às recomendações que se apresentam válidas para qualquer expressão artística: não criar sob o signo da emoção e não pensar no leitor no momento de escrever.

            Na “Retórica del cuento”, 1928,  Horacio Quiroga, hoje, considerado um dos mestres no gênero, dá mostras de insegurança, referindo-se a sua  técnica envelhecida e, acabando por concluir que já é tarde para mudar a sua maneira de entender o relato e que assim sendo, tentará, pelo menos, não torná-lo pior E, reafirma a sua idéia de que o conto curto é a forma narrativa mais perfeita.

            Em “Ante el tribunal” 1930, o Horacio Quiroga, então com 52 anos,  que se sente julgado e condenado pela nova  geração, os jovens iconoclastas do ultraismo reconhece que na juventude, se levantou contra o passado literário com tanta violência quanto é atacado, mas não se rende e replica, ironicamente, cada uma das críticas que lhe são feitas.

            Nesse expressar-se como retórico, Horacio Quiroga está procurando transmitir a sua experiência como escritor, talvez se justificando, talvez se explicando. E Carlos Liscano, nas linhas que lhe dedica,  considera que tais palavras são parte do processo da invenção do escritor. Um processo, dir-se-ia ,  e isto não é segredo para ninguém, que somente irá ter a sua significação  quando acompanhado dessa força interior, desse exprimir  a inconteste verdade individual, dessa capacidade em atingir a expressão estética desejada que é apanágio dos grandes artistas. Na verdade  mistérios, como os muitos que envolvem a criação de um texto, que nunca deixam de  instigar  os estudiosos da Literatura a desvendá-los: indagações a envolver certezas. E certezas que são plenas de riscos.  

domingo, 5 de agosto de 2001

Celina (2)


            Passava o seu tempo com uns crochês vagarosos, alguma costura leve, a leitura de folhetins, pequenos flirts e, dúbia, um quase namoro com Gilberto, hóspede do hotel de sua mãe. E é no “Hotel Bons Ares” onde, ao levar a mãe para se recuperar, que Alfredo a conheceu. A cada noite, na hora do jantar, entre os comensais, de longe, entrevia-lhe o perfil,  cujos cabelos muito negros e abundantes se destacavam num penteado harmonioso e complicado, em que se enrolavam fitas. Depois da sobremesa, saiam todos para o jardim e Alfredo pensava que havia ido para visitar a mãe e que não ficava bem deixá-la só para ir passear entre os canteiros mas o seu desejo era ir no sulco do vestidinho claro de Celina, que ele via errar como mimosa faléia sob a amendoeira, sob o grande pé de manacá em flor, sumindo-se entre as folhagens daqui, dali [...]. E, assim, sem perceber o leve riso de zombaria que tivera no primeiro encontro, ao vê-lo se ocupar da mãe doentia, como que lhe bastou esse olhar que dela recebia, raio luminoso [...), filtrando sonsamente por entre as pestanas baixas,  [...] morno e dúbio, dardejado por entre a sombra de uns cílios espessos para imaginar um futuro a seu lado.  Mas, à Celina não bastou  a simplicidade dos dias e a vida  rotineira e medíocre que lhe oferecera  e a fez sentir-se ludibriada:  Não, deveras, a vida não lhe corria leve, nem jovial...Ah! não! Era uma monotonia, um isolamento!”. E,  então, mostrar essa faceta de revolta que  irá se revelar nas palavras maldosas e agressivas dirigidas à sogra (   Estou acaso prisioneira nesta casa?...), ao marido quando a vai buscar no hotel da mãe para onde fôra por uns dias ( Lá vamos outra vez para a tapera!...), à irmã ( es uma oferecida, que levas a fazer olho a um rapas que mostra bem não te querer...). Ou no olhar irritado, enviezado que lança á irmã ou que esconde,  errante sob os cílios descidos seus  sentimentos.  Principalmente, nesse arroubo de indisciplina que a leva, sem licença do marido para a casa da mãe que, outra vez, hospedava Gilberto, já não mais o estudante pobre e mofino que fora, mas um homem feito e rico. Ao saber que lhe cortejava a irmã, ele que havia prometido  amá-la sempre, e que, ainda lhe faz juras de amor, enche-se de ciúme e, ao vê-los juntos, sente-se  ferida por uma ofensa grave. Sucumbe a um só desejo: separá-los e, nesse momento, faz de menos o marido e os filhos.  Quando porém, se depara com as verdadeiras intenções de Gilberto – levá-la para viver com todo o conforto, num bairro distante, oferecendo-lhe belos trajes e jóias e distrações – e a sua pressa em dela tomar posse,  não  muito diferente daquela demonstrada por outro hóspede, velho e rico, debate-se, desorienta-se, recua. Então,  quando a sogra, que a fora buscar, fala do amor  do marido e das crianças e das inequívocas razões da moral vigente – debaixo do teto de teu marido está a salvação, está a honra, está a felicidade garantida,  chora muito e implora para ser levada de volta para casa. Logo, diante do marido e do grito de alegria do filho ao tornar a vê-la, esqueceu tudo e num ímpeto bom de alívio, de ternura, de remorso da sua loucura,  pediu perdão e prometeu não dar mais razão de queixa.

            Redenção e retorno ao bom caminho, isto é, ao seio da família de quem, na verdade, muito pouco – ouvir galanteios, recebido um beijo – ou quase nada dele se afastara, que deixará clara a intenção  moralizante de A Luta, estréia de Carmen Dolores (pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo)  no romance (Garnier, 1911), agora reeditado pela Mulheres de Florianópolis e EDUNISC de Santa Cruz do Sul.

            Abstraída, porém, essa intenção, Celina e seus encantos – dentes de pérola, pescoço delicado que movia com graça, discrição nos gestos e passos, silenciosa – que por vezes se perdem no relato, se mostrará um personagem habilmente construído. A princípio, esmaecida, nesta figura de sonsa, dúbia, dona de um risinho abstrato de um sorriso um tanto sonso nos lábios ambíguos, ao poucos vai deixando a sua vontade atuar e acaba por se sobrepor `a virtude e à austeridade da sogra e à falta de  escrúpulos e à leviandade da mãe cujas vontades, parecem, a priori, conduzir a ação do romance.

domingo, 29 de julho de 2001

O Poeta e a cidade

                           Autobiografia Mágica:Nasci no ano da descoberta do gás néon. Bem sei que  alguns leitores, diante disso, compreenderão a inocuidade de quaisquer outros esclarecimentos. Mário Quintana, “Do Caderno H”.  


            Mário Quintana, nascido em 1906, em Alegrete, com pouco mais de vinte anos, foi morar em Porto Alegre. Preso, no entanto, ficou às primeiras imagens e emoções que se lhe ofereceram nesses seus primeiros anos e que estarão presentes, ao longo de seu viver poético: ruelas, casas antigas, um luar, folhas iluminadas, a frase de uma velha tia, vozes atrevidas de moleques de rua. Um mundo que ficou para trás mas, sempre a conviver com esse outro, de cidade grande que, na sua transformação, vai se fazendo matéria inóspita. Alguns de seus textos do “Caderno H”, publicados no “Caderno de Sábado” (Correio do Povo de Porto Alegre), entre 13 de março de 1971 e 1º de março de 1973, dizem de seu olhar que descobre a luz e cor, um som inesperado que parecem não ter lugar de acolhida na insensibilidade da urbe moderna.

            Em “Urbanismo”, ele se pergunta que melhor ornamentação caberia às cidades metálicas senão o cactus que, além do mais, é tão adequadamente cacofônico. Na “Elegia em cinza”, ao constatar que nas cidades de puro cimento a palavra folha tem menos significado que um fantasma e, então, só resta o vento e o apelo para que Deus faça uma de suas mágicas, ao menos para colorir o vento. E, pungente, na sua síntese, soberana, “Esvaziamento”: Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem estrelas. Por vezes, abandona generalizações para lamentar ser privado do crepúsculo de Porto Alegre, de uma beleza pungente até o grito. Num dizer de brincadeira de criança, Cadê o crepúsculo?/ - O gato comeu., entremeia o testemunho irrefutável que anula o mágico existente nesse dizer: O gato se chama arranha-céu. E, não deixa de notar que essa palavra também, ao que parece, se encontra em desuso. Até porque, dir-se-ia, talvez os arranha-céus tenham perdido o encanto ao se amontoarem para se transformar nessa selva de pedra, horizonte mesquinho, a se erigir nas cidades. E, também, mais do que privá-lo do pôr do sol sobre o Guaíba, esse tipo de habitat irá fazer com que perceba, já nesses idos de 1972, a incongruência que significa. Num texto que tem por título “Trecho de uma História”, o poeta imagina dizeres de uma História Universal, editada no século XXXIII:  Os homens do Século Vinte, talvez por motivos que só a miséria explicaria, costumavam aglomerar-se desconfortavelmente em enormes cortiços de cimento. Alguns atribuem o fato a não se sabe que misterioso pânico ao simples contato da natureza; mas isso é matéria de ficcionistas, místicos e poetas... O historiador sabe apenas que chegou a haver, em certas grandes áreas, conjuntos de cortiços erguidos lado a lado sem o suficiente espaço e arejamento, que poderiam alojar vários milhões de indivíduos. Era, por assim dizer, uma vida de insetos – mas sem a segurança que apresentam as habitações construídas por estes.

            No entanto, o poeta, ao se dar conta das ausências e do lúgubre que podem resultar em certas escolhas urbanísticas, não se deixa, na verdade, vencer pela lamúria e descobre nos arranha-céus, aqui e ali, uma janelinha [...] perdida... sugerindo humanas presenças, isoladas na noite vazia da cidade; e uma casinhola, pequena, lá no alto, que, no seu dizer, é habitada pelo zelador da Lua.

            E, assim, persiste no seu poetar a imagem da cidade, mesclada a seus devaneios e presente na sua real dimensão nem sempre feita de encantamentos. Espaço, no entanto, onde, ainda, pode existir motivo para a emoção. Seja tão singela quanto ouvir, vindo lá do fundo de um terreno baldio, esse grilo, teimando em transmitir, na sua frágil Morse de vidro não se sabe que misteriosa mensagem às estrela ausentes.

domingo, 22 de julho de 2001

Celina (1)

            Casava-se a Celina [...]. Assim começa A Luta, romance de Carmen Dolores (pseudônimo de Emilia Moncorvo Bandeira de Melo), publicado em 1911 pela Garnier do Rio de Janeiro. Porém, a continuação da frase, assim como as páginas que seguem, apenas a mencionam quando toda branca, assomou à porta da sala envolta em véus virginais, dedicadas ao que acontece nesse dia e à descrição de tipos na qual sobressai a figura da mãe e da vida que transcorria no hotel da qual era proprietária: “Aos Belos Ares”. É entre suas paredes e seu jardim que, principalmente, se passa a ação desse romance que, no dizer de Maria Angélica Guimarães Lopes (nesse estudo que o antecede na edição de 2001 (Editora Mulheres de Florianópolis e EDUNISC de Santa Cruz do Sul) deixa perceber ecos de Balzac, Zola, Eça e Aluísio. No entanto, Celina a quem em determinado momento da narrativa, a autora chama de Essa Bovary da rua das Marrecas cujo sonho era ter uma vida menos presa e a independência da mulher elegante e rica, vestida com apuro, que sai só, vai a teatros e alimenta a corte ardente de muitos adoradores guarda muito pouco da Ema de Flaubert ou da Luiza de Eça de Queiroz ou das adúlteras de Balzac. Embora se constitua a personagem ao redor da qual gire a intriga de A Luta, poucas seqüências lhe são dedicadas e, quase sempre, breves. Como a se mostrar apagada entre a figura austera e sóbria da sogra e a figura exuberante e chamativa da mãe.

            Nos seus dezessete anos, é a quase menina esbelta, corpinho airoso, cintura fina, cabelos muito negros e abundantes e olhos grandes, como pincelados de bistre. São os seus olhos que irão primeiro, impressionar Alfredo. Logo, se prenderá a seu sorriso, a seu olhar que não descifra mas que o subjugam, fazendo com que lhe pareça pura e virginal, pura, boa, inocente, uma pobre menina que não é responsável pelo meio em que o acaso a fez nascer. E é esse meio o que lhe amedronta a mãe e a faz compadecer-se desse humilde destino de virgem, mal guardada por uma mãe leviana e espalhafatosa, sem contudo, se esquecer que além da educação e dos hábitos diversos, ignoravam afinal, a verdadeira natureza dessa menina refolhada, bonitinha, mas enigmática.

            O casamento e o tempo que passa, tornando-a infeliz, no viver medíocre de todos os dias, induzem a que nela se assomem as impaciências, as raivas, as revoltas. Celina tem gênio... procura desculpar a sogra. E as atenções que antes dela recebera ao ser hóspede do hotel  - quando lhe floria o quarto ou lhe oferecia uma flor –  nessa graça discreta dos gestos e passos se transformam em malquerença como se da mãe de seu marido adviesse todo o tédio de sua existência. Escutava as suas lembranças de velha, detestando-a mas sem ousar responder-lhe com as impertinências que lhe borbulhavam  no espírito. Indolente, entediada, mal humorada, se deixava ficar no seu roupão de manhã, todo enxovalhado, os cabelos crespos sem pentear. Num descontentamento que lhe irá permitir-se desafiar normas como sair de casa desacompanhada, responder de mau modo ao marido e ir, sem avisar para o hotel da mãe ou portar-se em desacordo com os ordeiros hábitos da casa, fechando e abrindo janelas ora de cara zangada ora a cantarolar cançonetas, principiando e largando leituras, costuras, arranjos num desejo de ser desagradável e incômoda . É  o começo de algo que irá quebrar a monótona aridez de seus dias numa sucessão de inevitáveis confrontos em que estarão à prova os princípios mantenedores da família nos começos do século XX.

            Mas, ainda que um exemplar modelo de família, Celina não tivera – e sim um lar movimentado, onde crescera e tão mal se educara - é por esse modelo que irá optar ao perceber o ilusório da felicidade com que lhe acenavam os  pretendentes dispostos a mantê-la teúda e manteúda. E, se afastando do perfil  feminino que, muitas vezes, é presença dos romances realistas, retoma o caminho da moral vigente que não chega  a infringir, expressando a visão de mundo de Carmen Dolores na qual, como o aponta ainda Eliane Vasconcellos, não cabe a luta por novos padrões  de comportamento da mulher e onde é privilegiada a figura da boa mãe de família.





domingo, 15 de julho de 2001

Adozinda


            Quarentona bem conservada, Adozinda Ferreira chegara de Iguaçu, com três filhas, dizendo-se viúva de um negociante português que falecera ao fazer uma visita a sua terra natal. Mostrava ter alguns recursos e, logo, com esperteza e felicidade, comprara um pequeno hotel, em Santa Tereza, onde se instalara com as  filhas. Trabalhadeira e enérgica, de manhã cedo, percorria corredores, salas e dependências, sempre alegre e ativa. É assim que aparece pela primeira vez no romance A Luta (Editora Mulheres de Florianópolis e EDUNISC de Santa Cruz do Sul) que acaba de ser publicado,  providenciando os últimos preparativos da festa de casamento de sua filha Celina. Surge azafamada, a correr, cheia de corpo, clara, com uns bonitos olhos pretos sob os cílios longos, um buço já forte, desenhando-lhe a boca larga e carnuda [...]. E, ainda que a tentação de viver um grande amor, à margem do casamento, que se ampara de Celina seja a intriga do romance, é ela, Adozinda, quem, no relato,  se desenha com mais força, na alegre e espontânea exuberância de carnes e de atitudes. Balançando os quadris fartos, com os braços grossos sempre a mostra entre as mangas largas e curtas, ela se oferece à vista, expandindo-se no seu jeito brincalhão, em riso fácil e em gargalhadas sonoras. Numa familiaridade ruidosa, numa jovialidade vulgar se insinua e a sua voz forte ressoa pela casa  ao oferecer um café, dar as boas vindas ou, gritar  ordens.  Com a pele branca, a mão repolhuda, o seio abundante, o cabelo preto, enrolado em nó sobre a nuca forte e suas roupas decotadas  a esvoaçarem pelos corredores se mostra moça e exuberante nos seus   modos desenvoltos. No entanto, aos olhos do futuro genro, se constitui a mãe suspeita, a dona de um hotel de segunda ordem, a mulher a quem atribuíam amantes.

            Suposição que a  narrativa confirma numa seqüência  exemplar  de  elegante picardia: pela manhã, penetrava familiarmente nos quartos dos hóspedes, esquecia-se a palestrar com os prediletos, aos quais levava ela própria o café com biscoitos, muitas vezes alguma rosa ainda aljofrada de orvalho matutino e colhida por suas mãos no jardim – ressoando através das portas fechadas os seus risos sonoros, não raro seguidos de inexplicáveis silêncios, até que o favorito da ocasião saía do quarto muito apressado, vermelho, a correr para apanhar o elétrico, e dona Adozinda voltava às suas funções domésticas, com o rolo do cabelo um pouco desmanchado, mas sempre enérgica e laboriosa no exercício dos seus deveres.  Outras, a mostrarão  decepcionada, ao perder um hóspede  que tanto lhe valia nos apuros ao  se dar conta que havia calculado mal ao casar Celina com Alfredo, na verdade,  muito menos remediado do que o supunham.

Porém, o seu perfil irá se completar com o passar do tempo, esses cinco anos que lhe deram dois netos e a deixaram mais acabada, com o nariz menos fino e os olhos vivos um pouco empapuçados. Que, sobretudo, a mostram desprovida dos valores tradicionais  que soem ser desejados numa boa mãe de família. Porque possui o respeito pelas farturas da abastança, não, porém, o respeito pelas suas filhas que não se preocupa em educar e que não hesita em usar em proveito próprio. Prefere que a casada se afaste do marido e dos filhos para se tornar amante de um rapaz rico e nada faz para impedir que a outra consiga dinheiro para o luxo em ausências inconfessáveis que desculpa como excentricidades americanas. Quando Celina, angustiada pelas escolhas que deve fazer e, em pânico por ter repelido, violentamente, os avanços do lúbrico velho hóspede do hotel e pelo trovão que, em meio à tempestade, se fez ouvir, na casa, com um formidável estrépito de louças partidas, diz chorando que está com medo e quer se refugiar no seu vasto seio, ela, rancorosa por ter perdido o hóspede que vai embora, ofendido, não olha para a filha, nem lhe estende os braços. Porém, quando Celina, enfim, decide que o seu lugar é junto do marido e dos filhos e não em casa montada por um amante, não titubeia em chamá-la de filha ingrata. Principalmente, se revela, na melancólica observação da filha mais nova  ao perceber que  está de acordo com a possível ligação extra-conjugal entre Celina e o pretendente rico: Hum!... mamãe é imoral!...nunca vi!....

Carmen Dolores (pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo), no entanto,  não julga esta sua personagem. Tampouco a pune. O conhecimento adquirido ao escrever ou sobre a mulher e suas emoções nos contos que antecederam este seu primeiro romance cuja primeira edição é de 1911 ou sobre aspectos do cotidiano nas suas crônicas,  lhe permitiram aproximar-se da lógica  e dos mistérios que existem nos relacionamentos humanos. Daí fazer de Adozinda, alguém que irá permanecer o que sempre foi:  essa mulher livre de amarras e predisposta a ser feliz. Como deixa ver o  olhar brilhante que pousa sobre as filhas. Nele renasce a esperança de que, embora Celina não tenha se submetido  ao que dela havia pretendido,  tudo se arranjará sem que, necessariamente, se preocupe em saber qual o preço que será preciso pagar por isso