domingo, 26 de fevereiro de 2006

Tratado das breves sequências: Anastácia


            No oportuno artigo, “Um escritor e seu tempo”, publicado há pouco na coluna que assina em O Estado do Paraná, Wilson Bueno defende José Saramago das críticas que sofreu no Brasil ao comentar a atual (dir-se-ia perene) crise política. Com o argumento válido e, certamente inquestionável, de que a pátria de um escritor é a sua língua e que a indispensável tarefa de denunciar as mazelas do nosso insensato mundo deve estar alheia a qualquer geografia, Wilson Bueno faz, também, pensar o quanto a maioria dos escritores brasileiros escolheu se manter à margem do que acontece ao seu redor. Pessoas morreram destruídas pela repressão e reinou o silêncio. Pessoas continuam a viver em condições sub humanas e reina o silêncio. Mas, por vezes, em relatos centrados num drama individual, breves seqüências fazem ver os dramas sociais que, para a maioria da elite do país, parecem não existir ou, pelo menos, ter somenos importância. 

            Em Relato de um certo Oriente (Companhia das Letras, 1989, 2005), seu belíssimo livro de estréia, Milton Hatoum anota fragmentos de um cenário e seus atores que, miseráveis, formam um mundo diferente daquele encerrado no espaço da casa onde se abrigam os seus personagens. Mundos separados por um abismo, como o constata a narradora ao percorrer a cidade proibida, porque habitada por homens bêbados e mulheres ladras ou prostitutas e ao deter o seu olhar nas ruelas de Manaus, cujo traçado era uma geometria confusa, e o rio, sempre o rio, era o ponto de referência, era a praça e a torre da igreja que ali inexistiam; nas fachadas de madeira, pintadas com as cores espalhafatosas; nos enxames de crianças nuas e sujas, agachadas sob um céu sinuoso de redes coloridas’; nas mulheres amamentando os filhos, entre nuvens de moscas; na praia de imundícies, de restos de miséria humana; nos homens que brigavam entre si, cicerones andrajosos, de cujos corpos mutilados e rostos deformados com suas vozes que buscavam imitar alguma frase, talvez em inglês.

            Mas é a figura de Anastácia Socorro que assinala este outro abismo: o que separa, no Brasil – numas regiões mais, noutras menos – os que possuem (fortuna), daqueles que são donos somente de privações. Também o assinala, um dos narradores – no romance, são múltiplas as vozes – que dela se ocupa: Hakim, um dos filhos de Emilie matriarca ao redor da qual gravita o relato. Ele rememora, muitos anos passados, o ato de caridade de sua mãe, o dia da oferenda, quando ela distribuía quitutes e guloseimas aos que a esperavam, sob o sol escaldante do meio-dia, diante da porta de sua casa, numa fila que se alongava e na qual não faltavam as crianças, nem os mendigos, nem os doentes. Tampouco, esquece das relações entre sua mãe e a lavadeira. Lúcido, tenta ver no gesto da mãe ao dar comida para os filhos de Anastácia Socorro, uma atitude espontânea e generosa, mas, desta, ele duvida e tem razões para tal: as lavadeiras e empregadas da casa não recebiam um tostão para trabalhar [...]. Como, aliás, é um procedimento corriqueiro no norte, ele acrescenta. Sobretudo, que sua mãe resmungava: Anastácia comia como uma anta e abusava da paciência dela nos fins de semana em que a lavadeira chegava acompanhada por um séquito de afilhados e sobrinhos. Aos mais encorpados, com mais de seis anos era dado um trabalho: limpar janelas e lustres e espelhos, alimentar os animais, catar as folhas do pátio. Porém, a humilhação os transtornava até quando levavam a colher de latão à boca e se escondiam para comer uma comida diferente daquela servida para a família.

            Dessa convivência que se estabelece sob o signo de privilégios e servidões, diz Dorner, o alemão fotógrafo, para Hakim: -Aqui reina uma forma estranha de escravidão. A humilhação e a ameaça são o açoite; a comida e a integração ilusória à família do senhor são as correntes e golilhas.

domingo, 19 de fevereiro de 2006

A linguagem do olhar


            A volta do passeio que fizeram até a praia, devido a um defeito no pequeno caminhão em que viajavam, foi interrompida. No hotel em que se hospedaram enquanto tentavam a solucionar o impasse, Maneco Manivela, um dos três viajantes, acredita estar sendo vigiado pela polícia. Pensa que existem razões para tal, mas, nada comenta com Luiz ou com Leo, seu companheiros, como tampouco expressa seus temores. As suspeitas de que pode ser preso e as suposições a respeito de outros hóspedes do hotel o fazem viver um drama que, sinuosamente, Dyonélio Machado relata em Desolação (reeditado pela Planeta do Brasil em 2005). Mais do que em trocas de palavras e em gestos esboçados, a insegurança, os temores, a desconfiança de Maneco Manivela irão se expressar pelo olhar. Quando descansa no quarto, distraído, o seu olhar errante pode se perder nas manchas de lua que vão salpicando o aposento aqui e ali; quase sem ver, o seu olhar se pousa no rapaz que está do outro lado da rua e na criança arteira que a mãe tem trabalho para cuidar;  ou percorre, com calma, o salão do hotel, em busca da moça que o interessa. Por vezes, o seu olhar acompanha uma ação: quando está se escondendo e quer entrar, outra vez, no seu quarto do hotel, se aproxima da quina da casa e olha para a porta onde o cozinheiro e o investigador falam e procuram ao redor; antes de por em prática o plano para comprar a embreagem que faz falta no caminhão, põe um olhar investigador para dentro do salão do hotel;  e quando se quer pôr a salvo do investigador, planejando sair pelo pátio do hotel e, em dúvida, inseguro, pensa fazê-lo sem olhar para os lados, sem ligar às caras admirativas que o pudessem estar observando.... Então, sai do pequeno quarto da gerência, muito atento. Olha primeiro a sua esquerda: é o salão que ele vê, através do arco. Francamente iluminado, como tudo aquilo ali, está envolvido numa luz avermelhada. Uma nesga de céu – dum céu ainda crepuscular – encaixilha-se numa das portas da frente.

            Há, também, o olhar que nele se fixa: de simples curiosidade como o olhar indagador, parecendo procurar algo do garçom do hotel de Águas Claras e de seu hoteleiro que o espia e lhe depõe uma ou duas vezes o olhar, tornado redondo naquele esforço de reflexão, de compreensão ; e, ainda, o do seu Durval, dono do Hotel Saraiva, de Viamão, cujo olhar agudo nota a palidez de seu rosto quando o informa da prisão do Dr. Matos. 

            Mas, sobretudo, abundam os olhares que estabelecem a incerteza e o medo. O do investigador que o observa e não mais disfarçando uma atitude neutra, lhe arregala “um olho vivo, de interesse; que fumando, com o olhar abaixado gravemente sobre a mão do cigarro, mas olhar pronto a se elevar e “cintilar” ao menor ruído, à menor suspeita; e no hotel, de quando em quando, ergue-lhe um olhar furtivo, o fita longamente enquanto toma a sua média e come o seu pão. Maneco Manivela acredita que é da polícia porque, surpreendido, desvia os olhos, despistando. Ao contrário o olhar do Dr.Matos tem uma luz serena, firme e várias vezes cruza com o seu enquanto escutavam Bagé falar sobre o movimento revolucionário fracassado e seus planos de governo. O interesse que demonstrou pelo que ele dizia, levou o Dr. Matos a preveni-lo ser Bagé um agente provocador. E a mandar-lhe, de presente, “A Cartilha da insurreição” com uma dedicatória que expressa a certeza de que lhe será de proveitosa leitura. Ao folhear o livro e se dar conta de seu conteúdo, Maneco Manivela o fecha, cauteloso, e olha para os lados e para Jó que o entregara, com um olhar que quer penetrar fundo e que só encontra a cara séria e simples de peão de estância.

            Tais referências ao olhar, entre as muitas que pontilham as páginas de Desolação, tanto quanto as zonas de sombra, os diálogos que se interrompem, as idas e vindas da notação do tempo, se inserem, como um recurso de excelência, na intenção de ambigüidade que norteou Dyonélio Machado nesse seu romance, de 1944, que se inscreve, testemunho, no período de obscurantismo de uma ditadura.

domingo, 12 de fevereiro de 2006

O olhar e seu personagem


            Desolação, reeditado em 2005, pela Planeta do Brasil, relata os dissabores de três amigos, que se propondo a um breve passeio até o litoral, se vêem obrigados a prolongá-lo devido a defeito no motor do pequeno caminhão em que viajavam. Para um deles, Maneco Manivela, se inicia, então, uma outra aventura: a de se ver (ou assim acreditar) vigiado por um elemento policial a serviço da repressão.

            Publicado pela primeira vez em 1944, o romance de Dyonélio Machado, mais do que narrar as peripécias em que se envolveram os três amigos, quer registrar o clima de insegurança e temor em que viviam alguns brasileiros sob o signo da ditadura que dominava o país. Paralelamente às andanças do grupo, visando o conserto do caminhãozinho, vai-se instalando em Maneco Manivela o medo de ser preso o que ele não compartilha com ninguém. Drama a conduzir o relato feito, sobretudo, de ambigüidades entre as quais, muitas vezes, a ausência de palavras que expressem a angústia, as dúvidas, a insegurança de Maneco Manivela, são  substituídas pelo olhar. Pelo olhar irão se esboçar os personagens e, pelo olhar irão se estabelecer significados reais ou presumidos.

            Assim, é somente o olhar que marca a presença de personagens efêmeros, apenas mencionados: o mecânico da oficina, onde os amigos foram tentar a compra da embreagem, olhara o tempo todo para eles com uns olhos sorridentes, malandros; o rapaz moço e mal vestido que, na rua, se prontificou a empurrar o caminhão, cujo motor não pegava, tinha um olhar vivo, franco; o outro rapaz, parado perto de um portãozinho, do outro lado da rua e para o qual Maneco Manivela olhara superficialmente, tinha o pé direito, levantado, posto sobre uma saliência do muro e o olhar abaixado, preso a esse pé. Também é o olhar que definirá os sentimentos e emoções de Luiz e de Leo, os companheiros de Maneco Manivela. Luiz, ao escutar uma combinação a ser feita, a fim de negociar a peça que faria o pequeno caminhão funcionar, volta a ter o seu olhar redondo, inquisitivo, admirativo e, em determinado momento, se lembra do olhar do irmão, trabalhando no bar de que eram donos: suspicaz e intolerante, devassando tudo. Irritado, diante de um dos impasses para consertar o carro, olha para Maneco Manivela com um “olhar impaciente e interrogativo; face à tensão de Maneco Manivela com a chegada ao hotel, vindo de Porto Alegre, de um sujeito, cuja presença o intrigara, várias vezes ergue rápido o olhar para o companheiro de viagem, um olhar que espreita os seus gestos, uma provável ação de sua parte. Admirado com a notícia que o Dr. Matos fora preso, os seus olhos fuzilam enquanto Leo, o outro amigo, apenas levanta vivamente os olhos. Porém será um olhar intrigado e um tanto súplice que Leo irá lançar a Maneco Manivela quando ele entra no quarto do hotel e o surpreende contando a Luiz a prisão de um motorista. Olhar que se repete enquanto vai dizendo o que sabe; esperando uma decisão sobre o conserto necessário, tem o olhar suspenso da cara de Manivela. E curioso, se mostrará ao se defrontar com a casa cor-de-rosa de frisos brancos, procurando ver o seu interior, erguendo o olhar furtivamente para a janela entreaberta. Chico Galinha, o dono da casa, que oferece guarida para o pequeno caminhão, ao acompanhar o grupo até a oficina onde pretendiam comprar a embreagem, tem o olhar que fuzila, alerta e ainda com o grupo, olhando para o céu, comenta que irá chover. Sob a ramada de seu jardim, estacionado, o pequeno caminhão. Quando por ele passam, ao entrar na casa, todos lhe deitam um olhar.

            Tais zonas de sombra, tais descrições em que apenas um gesto, uma frase, são suficientes para conferir ao personagem uma vigorosa presença, ao se enlaçar à intrincada teia de olhares – origem de interpretações, suposições e certezas – aprisionarão Maneco Manivela numa trama desconcertante e fugidia .

 

domingo, 5 de fevereiro de 2006

Por conta do surrealismo


   
        
A reunião estava terminando como o entardecer que cede lugar a uma noite assombrada por prenúncios de tempestade. No salão nobre da Prefeitura, ao redor da mesa,  o prefeito, o bispo, o superintendente do Incra, o enviado do governador, o presidente da Associação Rural.  E os representantes dos sem-terra a expor a situação em que viviam sob as lonas – inverno rigoroso que a fome e as doenças tornavam difícil – não minorada, pois o governo apenas prometia. Como resposta, obtiveram somente  promessas a conduzir, ainda outra vez, a um incômodo impasse. Todos compreendiam que as palavras haviam se esgotado. Páginas antes, Orual Soria Machado tinha descrito a marcha dos sem-terra. Um guri que viajava com a mãe, do ônibus, vira a multidão  caminhando pela beira da estrada: parece uma baita lagarta, dissera. Como que surgida da terra doente dos agrotóxicos e enjoada da monocultura, acrescentara o narrador,  ela subia e descia colinas, atravessava riachos e acompanhava a mancha escura do asfalto que, por vezes, não podendo evitar, invadia, pagando com a vida qualquer atrevimento ou descuido. Quando já havia percorrido mais de dezoito quilômetros, no fim da tarde, parara perto de uma pequena cidade, deixando para trás três pontes, dez pontilhões, dezoito mil metros de fios, mais de cinco mil tramas e mourões. E só depois  de muita andar é que os sem-terra chegaram à  Fortaleza dos Amparados, ajeitando-se, nas aforas,  perto de um mato de eucaliptos. Seu acampamento é dado a conhecer pelos olhos da comissão de autoridades que até lá fora para conhecer a extensão do problema. Logo ao chegar, o bispo enxergou uma sucessão escura e indefinida de barracos que se perdiam entre as árvores. Cobertos com plásticos negros e guarnecidos por ramas e capim santa-fé, eram frágeis refúgios contra a chuva e os ventos. Pelos caminhos estreitos, as autoridades foram vendo a miséria – colchão de macegas, cobertores ralos, poucos utensílios de cozinha – e o seu resultado nas mulheres mal nutridas, amamentando crianças com fome, pessoas com tosse, meninos descalços, subnutridos. O narrador diz que a penúria e o desamparo cutucavam os nervos amortecidos da comissão que mergulhava lentamente nessa mancha dolorosa como quem se abriga a atravessar um pântano e  ouvindo dizer que estava faltando tudo: o leite, o arroz, o feijão, cobertores, roupas, remédios. Ao chegar à metade do acampamento já farta do que via, a comissão não quis continuar. O prefeito, como se acabasse de vislumbrar centenas de eleitores ávidos de sua oratória fez promessas e promessas fizeram os representantes do governo e do Incra. As do prefeito e da Diocese – sacos de cereais, agasalhos, utensílios de cozinha, madeira, lona – demoraram três dias, algumas horas e um mundão de minutos  para chegar. As do governo do estado e as do Incra, porém, se dissolveram no passar do tempo e nas razões que ninguém ignora: todos também sabem que o estado enfrenta dificuldades econômicas e as negociações levam tempo, existem procedimentos legais da União que precisam ser respeitados. A quantia que o Governo Federal destinara para cada família de colonos atrasara por problemas burocráticos; ajuda das associações comunitárias e da Igreja diminuía e os ventos fortes destruíam barracos. Fortaleza dos Amparados festejava a inauguração da XXX Feira Agropecuária do Município. As autoridades e os que participavam das atividades econômicas da região estavam ocupados com prêmios, negócios, festejos. Perto dali, com sua fome e seu desamparo, era como se os sem-terra não existissem. Assim, suas perguntas cismentas ficaram sem resposta: como poderiam confiar nos governos ou acreditar nos desígnios de Deus, se a razão daquela luta toda – a família – minguava e morria de inanição em meio aos campos verdes, à gadaria gorda e a muita terra fértil para plantar.

            Náufragos da terra os chama Orual  Soria Machado,   expressão que dá  título a seu romance (Porto Alegre, Mercado Aberto, 1996): obra de ficção, ele diz,  no qual as coincidências com fatos, nomes e situações, devem ficar por conta de todo o surrealismo que vivemos neste país e na América Latina, onde é difícil separar a imaginação da realidade.

domingo, 29 de janeiro de 2006

Discursos didáticos na ficção


             Em 1894, foi publicado em Montevidéu, Beba, primeiro romance de Carlos Reyles. Tinha ele vinte e seis anos e herdara vastas propriedades rurais às quais tentou se dedicar, cumprindo o que prometera ao pai: continuar o aperfeiçoamento dos rebanhos pelo uso de técnicas modernas de reprodução. Sem abandonar os imperativos de sua vocação intelectual, logra estabelecer um vínculo em que se integram o estancieiro e o literato e o resultado é esse romance em que muitos capítulos referem, minuciosamente, às atividades relacionadas com os cruzamentos do gado, os registros dos progressos alcançados, as melhorias efetuadas nos seus estabelecimentos rurais.
 
            Um século e dois anos depois, num romance brasileiro, aparece o testemunho de que essa modernização, apregoada por Carlos Reyles que, na verdade, não fora aceita no Uruguai, pese a sua vocação pastoril, apesar do tempo transcorrido, tampouco chegara aos campos do sul. Orual Soria Machado, em seu romance, Os náufragos da terra (Porto Alegre, Mercado Aberto, 1996), dizem os editores, resgata para a ficção o drama dos sem-terra. E o faz no relato de sua chegada, centenas de pés nus ou mal calçados, ao município até o momento em que se inicia a ação para desalojá-los. Nas descrições e nos diálogos, muito claras as imagens dos mundos que se opõem – o luxo supérfluo do palácio episcopal, o conforto de uma casa rica, a degradação dos prédios do governo,  a precariedade reinando no acampamento dos sem-terra – completados por figuras, cujos perfis são traçados a partir de gestos: o funcionário público escarrapachado num sofá lateral, limpava as unhas com um canivete; na visita do prefeito ao bispo, um leve simulacro de beijo no anel episcopal; no clube manoplas manejavam cartas com uma destreza já amortecida pela hora ou pela bebida, diante da fome dos filhos os sem-terra passavam ansiosos a mão nos cabelos, pitavam intermináveis cigarros raquíticos, cismavam. Nos diálogos, insistente, o assunto é a imprevista e indesejada presença dos sem-terra. Expõem-se razões, feitas de repúdio e ameaças; tentam-se defesas e, então, as palavras não parecem cair em terreno fértil; ou, evidencia-se a hipocrisia dos mandantes que se subtraem às decisões e adiam soluções. Um emaranhado de argumentos que, nas vozes do prefeito, do presidente da União Ruralista, do agrônomo subordinado ao Instituo de Pesquisas Agropecuárias, do bispo, do padre que acompanha os sem-terra, dos seus representantes expressam os conflitos decorrentes do embate opondo os que possuem (qualquer ameaça às propriedades rurais seria rechaçada com vigor) e os que precisam possuir (-Somos colonos procurando conseguir um pedaço de terra como vocês têm. Se a propriedade é coisa boa, nós queremos também uma para nós). Entre eles, os mediadores, aparentemente solidários (Fiquem tranqüilos, mantenham a ordem e logo chegará auxílio) quando, apenas fazem parte do jogo de inútil retórica e permanecem, sobretudo, alheios diante do que ocorre (-Seu prefeito, já tem gente passando fome). E, também aqueles que, impotentes, se dão conta dos absurdos que alimentam a inaceitável desigualdade social (Que se estava fazendo neste país para aparecerem chagas sociais tão extensas) ou que, lúcidos, percebem os descaminhos administrativos do governo e a ignorância dos proprietários rurais, tanto na lavoura como na criação de gado a impedir resultados positivos. Assim, o gado, com as coxilhas crestadas pela geada, mal se rebuscava de alguma sobre de pasto ou forrageira resistente nas canhadas. Os proprietários não se preocupavam com ele, atribuindo a Deus ou simplesmente ao tempo, a ferocidade de um ano ruim. Poucos conheciam as técnicas modernas de pastoreio ou de ensilagem para os meses de inverno ou se preocupavam com a fertilidade do rebanho. Uma ignorância malsã ou uma acomodação perniciosa, já constatada por Calos Reyles, cuja conseqüência não se restringe ao prejuízo sofrido pelos donos das terras. Porque assim como as terras improdutivas, as carcaças de gado morto pontilhando os campos deixam de alimentar milhares de bocas neste país.

domingo, 22 de janeiro de 2006

A fogueira


            Ao contar em Primeiro de abril: narrativas da cadeia a sua experiência como preso político em 1964, Salim Miguel entrelaça o tempo e as vozes do relato, recursos que remetem ao ficcionista que ele é, autor de romances (Rede, A voz submersa, A vida breve de Sezefredo das Neves) e de contos (Velhice e outros contos, Alguma gente, O primeiro gosto, A morte do tenente e outras mortes, As areias do tempo). Como o subtítulo deste seu livro, publicado pela José Olympio em 1994, o indica, trata-se de uma obra feita de textos unidos por um fio condutor, mas que podem ser independentes entre si: são dezesseis capítulos ou módulos autônomos como os define Moacir Wernek de Castro. Relatam a sua prisão no dia primeiro de abril de 1964,  o seu cotidiano na cadeia, o interrogatório a que foi submetido e o que ocorreu quando foi posto em liberdade: a alegria de sair da cadeia, a constatação de que existem vários tipos de liberdade.Três desses capítulos descrevem os tipos com os quais conviveu no alojamento em que ficaram confinados . 

            Um depoimento sobre o que foi apenas o incipiente começo das práticas que iriam ocorrer depois: interrogatórios baseados na tortura, violências, desaparecimentos, mortes. Porque Salim Miguel permaneceu na cadeia quarenta e oito dias. Em relação a outros presos políticos do período ditatorial, foi uma pena leve o que não significa terem se constituído, para o indivíduo que nenhuma infração havia cometido a não ser a de possuir idéias próprias, um castigo injusto e inaceitável: ser privado da liberdade sem culpa formada e por elementos que não sabiam exatamente o porquê do que estavam fazendo e comandados por outros que tampouco possuíam  condições de mensurar seus próprios atos e agiam sob o impulso da obediência cega e servil, não tendo como justificativas mais do que uns gastos chavões.

            Um dos capítulos tem por título “A fogueira” e trata não de uma fogueira qualquer mas da que foi alimentada por livros considerados grandes inimigos do sistema, uma vez que seus esbirros eram incapazes de discernir conteúdos e muito menos de aceitar que pudessem existir formas diferentes de pensar que não a deles, calcadas somente em algumas poucas frases.

            Quando os livros foram queimados, a notícia se espalhou por ouvir dizer e, talvez, nem tenha sido veiculada pelos meios de comunicação. Assim, o testemunho de Salim Miguel sobre o espetáculo insano e macabro, ainda que tenham se passado quatro décadas, é estarrecedor. A Livraria Anita Garibaldi, situada no centro de Florianópolis, que havia sido de sua propriedade, foi arrombada, centenas de livros jogados na rua e queimados. Confundindo-se no fogo que os consumia, O capital de Karl Max, A capital de Eça de Queirós, O vermelho e o negro de Stendhal e Seara Vermelha de Jorge Amado, Memórias do cárcere de Graciliano Ramos, O príncipe de Maquiavel, Pinocchio de Collodi, O livro dos médiuns de Allan Kardec, Pintura quase sempre de Sérgio Millie. As palavras de ordem comandam, provocam, açulam, buscam incentivar [..] a que mais livros sejam trazidos, jogados no fogo pois nenhum deles deve sobrar.

Salim Miguel, preso, não soube de que maneira começara o fogo, nem o tempo que havia durado, consumindo as obras mais diversas. Atraídos pelas chamas e pela fumaça e palavras de ordem, o número de curiosos aumenta. Uns, sem entender, se mostram indiferentes diante das chamas; outros, indignados, sentem-se impotentes; poucos, esboçam um gesto de repulsa. De inegável, apenas, o momento de trevas, buscando estabelecer o fim da liberdade de expressão e do direito de escolha.E a notícia do crime, retransmitida de boca em boca, em meio ao terror, de vento em vento levada para longe.

            No cenário, ficaram as cinzas. E a pergunta, pertinente, imprescindível: Será mesmo que os infelizes acreditavam que a força do fogo seria suficiente para extirpar a força das idéias?

domingo, 15 de janeiro de 2006

O jardim

    
        No dizer dos editores, a tela de fundo sobre a qual se constrói a obra de Serge Elmalan, Nicolas de Villegagnon ou L‘Utopie tropicale (Favre, Lausanne, 2002) é constituída pelos três grandes temas dominantes da Renascença: o cisma religioso, as grandes descobertas marítimas e o antagonismo entre os Valois e os Habsbourgs. Como o título o indica, Nicolas de Villegagnon, personagem fascinante, é o fio condutor dessa aventura que foi a França Antártica e que se inscreve entre outubro de 1555 e janeiro de 1568. Quarenta capítulos compõem o relato, feito de muitos, exaustivos e intermináveis diálogos sobre as questões políticas e religiosas que envolviam a França com seus aliados e opositores. Entre eles, vinte e dois tem por assunto o Brasil: a cidade de Henriville e o Forte Coligny, criados para assegurar a presença francesa no Brasil. E é pelo olhar de Nicolas de Villegagnon e de seus pares que o país irá se mostrar, delineado em traços de sua paisagem, na presença de seus animais ou em algum perfil indígena. São formas arredondadas de montanhas distantes, extensões de areias litorâneas; são ruídos de uma orquestra invisível, feita de milhares de gorjeios diferentes, são os odores das folhas e dos troncos, os movimentos dos pássaros: papagaios coloridos, tucanos de gritos estridentes, pegas de extraordinários pescoços alaranjados, pombas com o bico escuro. São as pegadas deixadas pelos animais nas areias do rio: as do jaguar, sensuais e como marcas de gato; da anta, largas e com três dedos; os curiosos pés da capivara. Destacados, dois indígenas que não se indispõem contra a presença estranha. Mahire, o jovem índio que serve de guia a Nicolas de Villegagnon e sua gente quando se adentram nas florestas: um índio corajoso e de toda a confiança que surpreende pelas relações que mantém com a natureza e sua maneira de imitar o canto dos pássaros, o grito de certos animais, de ler os sinais que pareciam escritos claramente para ele nesse intrincado universo de verdor. E Cunhambembe, o de curioso nome, chefe dos Tupinambás, mostrado no adorno de suas grandes plumas antes de serem anunciadas as suas qualidades de personagem vigoroso, cheio de astúcias, capaz de falar durante horas e de expressar uma rara sabedoria: que os gestos mais humildes da vida podem ter a mesma graça insinuante que as atividades superiores. Reina numa região imensa e misteriosa que lhe aceita as múltiplas atribuições: prever o futuro, interpretar os presságios, impedir os elementos de prejudicar os homens, atrair a caça, repartir a força mágica para aqueles que tivessem necessidade, organizar as cerimônias e as danças. Villegagnon se felicita de tê-lo como aliado. E o frade Thévet guarda a esperança de convertê-lo. Porque, embora houvesse cordialidade no trato, esses franceses, chegados no Novo Mundo, traziam os projetos bem claros e definidos para tomar a terra e nela estabelecer um comércio, baseado na extração das riquezas e não se privam de querer impor suas verdades, tentando estabelecer o traje para esconder a nudez, procurando provar a excelência de seu deus.
            Assim, ainda que os marinheiros que haviam sido abandonados no litoral para aprenderem a língua dos índios ou os desertores que Nicolas Villegagnon encontrou ao chegar, tenham aceitado o ardor do clima e a sensualidade tropical, e, anarquistas insubmissos aos entraves sociais, abandonado os velhos princípios europeus que, para eles, não possuíam mais valor, guardaram algo da velha Europa. Montavam comércios lucrativos, provocavam naufrágios de barcos ou os capturavam com uma insolência de piratas. Com eles, diz Serge Elmalan, nascia o Novo Mundo. Mas, entre eles houve os que, à beira mar, conduzidos pela saudade, fizeram um jardim civilizado  a oferecer em meio à natureza selvagem e exuberante, o contraste de uma superfície estranhamente arrumada em maciços de flores e labirintos intrincados de um verde cortado com rigor.