sexta-feira, 4 de abril de 1986

Exílios


Volto sem luto e tem chovido tanto
na minha ausência, nas minhas ruas, no meu mundo
que me perco nos nomes e confundo
a chuva com o pranto.

Mario Benedetti











 


             Os sentimentos não se diluem, não se esgota o horror da última guerra. Peças de teatro. Filmes. Poemas. Romances. Há sempre um desejo de entender que renasce num multiplicar-se de visões, de fatos, de situações.

            Em fins de fevereiro de 1933, quando arde a Reichstag, muitos alemães se sentiram ameaçados pela polícia nazista e fugiram para a França que além de ser um país fronteiriço com a Alemanha possuía, ainda, a reputação de ser  um país liberal, hospitaleiro, tolerante.

O estudo minucioso dessa imigração, compreendida entre 1933 e 1934, foi tratado por germanistas e historiadores da Universidade de Paria VII, Vincennes, que ouviram testemunhos, examinaram documentos nem sempre completos ou de fácil acesso, muitos deles inéditos e reunidos num livro intitulado Les barbelés de l’éxil (Presses Universitaires de Grenoble, 1979).

            Trata-se de uma obra informativa e precisa. Mas, ao evocar a sorte individual e coletiva desses imigrados que tentaram fugir dos campos de concentração da Alemanha e acabaram, em 1939, atrás dos arames farpados  do país que os havia acolhido, é também  amiúde, um texto comovente. De forma objetiva, trás respostas a perguntas bem simples: quem emigrou, quando e por que. Respostas que dão ensejo a outras perguntas: quais as condições de vida desses emigrantes que saídos às pressas de seu país levaram consigo apenas o essencial, umas poucas roupas e algum dinheiro? Quais suas possibilidades de sobrevivência num país economicamente em crise onde era muito fácil tornar-se xenófobo diante do inimigo “hereditário”e da propaganda de uma imprensa preocupada em achar bodes expiatórios? Delineiam-se, então, destinos (sofrimento, dor, miséria) à mercê do Estado que ,demiúrgico, os condena. E’quando o livro não mais pode responder mas, levar à reflexão, à escolha.

            Judeus, operários, intelectuais, moços, velhos, políticos de esquerda, militantes comunistas ou simplesmente, todos aqueles que se opunham ao nacional-socialismo começaram a chegar nas fronteiras pelos primeiros dias de março de 1933. Nas suas diferenças de credos religiosos e de convicções políticas, nas suas diferenças de classes sociais, de nível cultural ou, simplesmente de idade, um denominador comum: todos acreditavam que o exílio seria breve.

            Na França, os grandes jornais que enviavam seus correspondentes à Alemanha, registravam a chegada ao poder dos nazistas, o incêndio da Reichstag, as perseguições aos partidos e às organizações de esquerda e, por vezes, apresentavam Hitler como um personagem ridículo e grotesco. Nesse momento, a opinião pública francesa é hostil aos nacionais socialistas e  a seus dirigentes, mas não chega a entender o porquê da necessidade de um alemão abandonar o seu país. Entre os partidos políticos, apenas os da esquerda irão manifestar simpatias pelos adversários de Hitler. Os da direita, discretamente (ou secretamente)  admiram  o homem forte do Terceiro Reich.

            A incompreensão, a desconfiança que se  manifesta em relação aos primeiros migrados de 1933, vai-se transformando, com o passar do tempo  e dos acontecimentos para e, em 1939,  levar  à  uma xenofobia brutal. E o desemprego, as péssimas condições de vida  e a solidão em que vivem os imigrantes, na verdade pouco representam se comparados aos campos de concentração franceses e às viagens sem volta para os campos de extermínio na Alemanha que se seguiram a esses primeiros tempos.  Então, nos  longos dias sem trabalho e sem diálogo  apenas uma única realidade existia,  a insegurança. Impedidos de trabalhar pelas  regulamentações  que, sucessivamente, os foram marginalizando cada vez mais, impedidos de  se comunicar, antes de mais nada pela  diferenças de idiomas e, muitas vezes, por uma situação psicológica que induzia a se afastar de seus conterrâneos e impedido de ter uma existência legal pois jamais conseguia estar em regra com a polícia. Como diz Gilbert Badia, na eterna busca de uma carteira de identidade, de um documento qualquer que fosse mas que o protegesse de uma expulsão repentina e sem motivo. Houve o tempo dos suicídios; também, para uns poucos, uma viagem de pesadelo para chegar à América e viver. São estes testemunhos conhecidos. Restava, porém, contar a  resistência anti-nazista feita através de livros impressos em caracteres minúsculos e sobre papel muito fino e que eram introduzidos na Alemanha em embalagens de xampu ou sob capas nas quais eram impressos títulos que se referiam a assuntos inofensivos como jardinagem, por exemplo. Ou de artigos em francês publicados nos jornais franceses ou de livros publicados em alemão na França.

            Ns anos de 1935, 1936 e 1937 o Terceiro Reich não cessa de se afirmar.  A participação dos alemães nos Jogos Olímpicos, na Exposição Universal de Paris, em 1937, a adesão do povo alemão ao governo, um equilíbrio financeiro para substituir a bancarrota prevista tornam cada vez mais difícil para o exilado a elaboração de um programa visando a democratização da Alemanha  o quê, a medida em que passam os dias, mais e mais significa uma utopia. Um esforço contra a opressão e o terror existiu. Foi, porém, uma resistência que fracassou. Não conseguiu se unificar, não constituiu um governo no exílio, não conseguiu derrubar Hitler, nem mesmo mobilizar contra o regime nacional-socialiesta uma facção numericamente importante do povo alemão.

            Para o organizador da obra, o tradutor de Brecht na França,   professor Gilbert Badia  assim como os demais autores, escrever a história dessa resistência, dessa oposição a Hitler no interior e fora das fronteiras da Alemanha, é completar a História do Terceiro Reich. Les barbelés de l’’exil contém os primeiros resultados de uma pesquisa que se quer mais extensa. No momento, estes vários trabalhos que o compõem, além do próprio interesse que os impulsiona – preencher uma lacuna da História Alemã Contemporânea – alcançam já um momento muito importante ao se constituírem, sobretudo, a afirmação de que os fatos podem e devem ser encarados sob diferentes ângulos. E este que abordam, até o presente, tinha sido esquecido pelos historiadores.

            Sob este aspecto, podemos lembrar a posição de alguns latino-americanos cujas colocações sobre a História da América contrariam toda a historiografia oficial, estratificada no esquema colonialista e que, ao longo dos anos, transmitiu verdades discutíveis com a convicção daqueles que detém o Poder ou daqueles cuja visão é limitada pelo dogmatismo mais vulgar. Para esses latino-americanos, vivendo em territórios que permitam ( ou permitem mais ou menos) a abordagem de determinados assuntos, fatos ou personagens, a história dos exílios, dos auto-exilados ( e falemos, apenas, desses últimos ) é um filão inesgotável. Se da Alemanha para a França foi uma emigração numericamente modesta e limitada por datas precisas, a emigração/ imigração na América Latina, coerente com as proporções geográficas e com seu contexto conturbado, atinge  enormes proporções   e diferentes categorias sócio-culturais.

            Estudar, então, essas migrações é completar a História da América, mostrar a sangria que lhe é imposta por um punhado de megalômanos cujo ridículo é tão incomensurável que não lhes permite o discernimento entre governar e auto intitular-se governante. E, sobretudo, mostrar que a História das minorias, ao proporcionar uma visão dialética dos fatos, leva à discussão e à reflexão. Se esta discussão e reflexão são necessárias em países como a França onde a liberdade de pensamento e de expressão é, relativamente, de há muito realizada, em países que ainda não
aprenderam  ou estão em vias de  aprender a pensar e a se expressar, servir-se de tais práticas, torna-se urgente e imprescindível.

sexta-feira, 7 de março de 1986

A trégua

            O Continente americano, espaço de crueldades, ilusões, magias. Na sua imensidão, algumas ilhas de trégua, de esperanças, interregnos do terror. Nelas, delas emergem fontes. Matizes, formas, vozes, textos antes sufocados. Vivências do absurdo, do sangrento. Renovados na escrita procurando uma compreensão do incompreensível, procurando um desabafo do irremediável: textos depoimentos. Não menos fores, profundos, cruéis, igualmente refazendo o que foi como se imaginado tivesse sido, os textos de ficção.

            Da Argentina é Gerardo Mario Goloboff. Poeta, ensaísta, romancista. Criador de palomas  (Buenos Aires, Brughera, 1984) seu romance deste interregno em que vive o país. Interregno que se desejaria muito longo e muito eterno para que nele pudessem respirar e crescer os criadores e os pombos. Os pensadores, os trabalhadores, os artistas e a paz e a ternura. Qual é o latino-americano que não deseja a reconstrução de seu  país e de sua gente?Limpei as macegas que tinham crescido no quintal[...]Pus várias tábuas no galpão desconjuntado. Curei e reavivei a parreira e passei cal nas paredes. Assim começa a última página de Criador de palomas.  Um renascer muito simples, como se fosse natural. Uma fé muito grande e muito boa: Estendi, tremendo, o braço e a pomba se aproximou da minha mão.
            Homem de um Continente que precisa se fazer, se construir, viver e que aproveita momentos de luz para consegui-lo. Seja esse homem Gerardo Mario Goloboff, seja esse menino narrador que atravessam distâncias e sofrimentos para acreditar.
            Criador de palomas é a história de um aprendizado. Aprendizado do amor, da ternura, da dor e da perda. Pedaços de vida registrados com a aguda precisão de um conhecedor da alma humana. Mas, sobretudo, alma adolescente desfazendo-se em silêncios.
            O contar se apóia em fatos acontecidos no passado a um menino de nove, mais tarde de  doze anos: uma festa de aniversário, um almoço de domingo, o incêndio na casa de móveis, um banquete de casamento, a compra de carne no matadouro, a viagem a French e a Cambaceres para vender roupas, a visita ao sonhador de Smith. Costumes e gente, algo do país que se define nas sensações, cheiro das acácias, da terra molhada, dos gravetos de vinha no fogo, o gosto amargo do chimarrão, do sal na carne.
            Mas, o que realmente importa são os pombos. O prazer profundo de tocá-los, o prazer muito grande de amá-los. Imensas presenças femininas. Clara, Verana, Pampeana, Blanca, Muñeca, Carla, a pequena pomba doente. E mais do que elas, presença dominante, a morte. O menino encontra uma das pombas mortas, jogada no meio de uma pocinha de sangue ; outra, com um corte profundo no pescoço, as patinhas cortadas, as asas retorcidas, as penas arrancadas. Ainda outra, com um bala esburacando-lhe o peito. As demais caindo longe. Mortes que acontecem de repente. E, que assim, de repente, são comunicadas ao leitor. Então, o narrador cala. Um silêncio como que originado do pudor ou talvez do acreditar desnecessário falar de uma dor já conhecida, experimentada por aqueles que vivem no Continente massacrado e para os quais tampouco fosse necessário explicar essas mortes. Sim, delas existem indícios, marcando o texto, existem insinuações. Uns e outros diluídos, porém, na apresentação dos momentos vividos pelo menino. Um viver que é feito de pequenas coisas – brincadeiras, risos, convívios – no qual a violência do extermínio se constituiu uma ruptura que, juntamente com o sangue e com o que é definido como esse torneio desproporcional entre a criatura indefesa e os seus raptores  se insere no mundo ficcional depois – e isso o leitor não desconhece – de ter se constituído um cotidiano para muitos.
            Criador de palomas, claros escuros alinhados com a maestria  da simplicidade. Ritmo de vida, marcado pela morte. Um dizer inocente, um “falar sem que se note”. Como que seda e lã envolvendo o leitor. Que sem o sentir fica ferido para sempre.
 .

terça-feira, 18 de fevereiro de 1986

Os caminhos do exílio

            Suficientemente conhecidas são as circunstâncias que, na América Latina, colocam e sempre colocaram frente a frente duas minorias que respondem pela maioria: aquela que é detentora de privilégios e a outra que tem voz e se expressa ( e, eventualmente, também goza de privilégios). Esta, busca a palavra; a outra o silêncio. A palavra, perseguindo a mudança; o silêncio, a estratificação. Essas forças desiguais ao se confrontarem, é evidente, levam ao fracasso da mais fraca e que somente possui a voz. Silenciada, parte para construir um destino em outras terras. Um país se esvai; outro, que sabe receber e usufruir, se enriquece.

            Pequenos, longos, intermináveis. Jamais encontram um fim os sofridos caminhos do exílio. Porque dez, vinte, trinta ou mais anos  contando distâncias e ausências podem resultar menos perdas do que o retorno ao que era, ao que foi. Para os artistas, para o escritor latino-americano o exílio se constitui, mais do que nunca, uma realidade, pois embora já existam  espaços libertos, eles são poucos, restritos e imprecisos e a volta à pátria não significa, obrigatoriamente, que o exílio tenha terminado. Muitas vezes, é apenas um outro que se inicia.

            Nas Américas, esse dessangrar é tão intenso quanto a qualidade das obras que, em geral, não chegam (ou chegam por meandros) a serem lidas na maioria do seus países  pois não é segredo para ninguém que, salvo as sempre honrosas exceções, também a política editorial dos paises latino-americanos é colonizada.           Razão suficiente para insistir no fato de que existem muitos  escritores latino-americanos cujas obras ( excelentes) o leitor brasileiro, por uma razão ou por outra, desconhece. Ou tem  condições de conhecer apenas de maneira muito restrita e aleatória.
 
 
A partida
 
            Argentino que vivia em La Rioja, jornalista e professor de violino no Conservatório, autor de cinco livros de contos (Artista de variedades, La lombriz, El fuego interrumpido, Mi música es para esa gente, El estuche de crocodilo) e de cinco romances (Uma luz muy lejana, El oscuro, El trino del  diablo, El vuelo del tigre, La Bahia) Daniel Moyano  há dez anos, desembarcou, com a mulher e três filhos,  em Barcelona, na condição  de exilado. No seu país, um dia fora levado preso e preso permaneceu vários dias. Quando o puseram em liberdade quis saber o porquê de sua prisão. Responderam que não sabiam e que melhor seria se não desejasse respostas. Aquela que obteve de si mesmo foi a decisão de partir para outro país onde pudesse criar seus filhos sem medos.    

            Hoje, em Madrid, voltou a trabalhar como jornalista e depois de uma pausa de quatro anos, voltou a tocar. Sua pena, porém, jamais silenciou. Nos primeiros anos de exílio escreveu um livro de contos que define como um livro sobre o exílio que não seja um lamento. Nessa mesma época, terminou seu romance El vuelo del tigre que iniciara em La Rioja.  El trino del diablo, já traduzido para o inglês, francês e polonês, aguarda decisão de uma editora  brasileira que,  ignorando as leis dominantes do mercado livreiro, vai inovar, publicando uma obra de autor desconhecido no Brasil cuja leitura lúdica será, sobretudo, instigante nos seus meandros.
 

A chegada
 
            Em 1947, com vinte e sete anos, Augusto Roa Bastos já estava exilado na Argentina. Desde então, foram muitos ofícios, foram muitas moradias: Eu tinha sempre que recomeçar, condenado a estas perpétuas migrações. Simultaneamente, o teimoso exercício do trabalho jornalístico e literário a se expressar na poesia ( El naranjal ardiente), no teatro (El niño del rocio), no conto (El baldio, El trueno entre las hojas), no romance (Hijo de hombre, Yo el supremo). Estes, publicados em 1965 e 1977, respectivamente, pela Paz e Terra do Rio de Janeiro

            No entanto, para Augusto Roa Bastos, como para os demais escritores paraguaios, o exílio acontece muito antes do efetivo exílio político: se inicia no momento em  que o escritor deve escolher o idioma em que irá se expressar. Para Augusto Roa Bastos, a Literatura é, fundamentalmente, comunicação e, assim,  a sua escolha foi forçosamente  o espanhol e não o guarani. Mas,  está consciente que ao escrever em espanhol, o ficcionista sente que está traduzindo de outro contexto lingüístico e, ao fazê-lo está ele mesmo se separando desse contexto, ficando sempre com algo por dizer. Isto leva o escritor paraguaio à necessidade de fazer uma literatura que não fique na literatura; de inventar histórias que sejam a transgressão da História Oficial; de minar com um escrita desmistificadora a linguagem carregada de ideologia da dominação.

            Recentemente,  o escritor paraguaio recebeu a cidadania espanhola. No mês de novembro passado, em Madrid, ele dizia: O exílio foi o meu grande mestre, me proporcionou serenidade.

            Serenidade para chegar, finalmente, a um espaço  onde viver o quê sempre lhe foi negado por seu país.


A espera
 
            Salvador Allende assassinado. O Chile se desagregando e se desfazendo um dos momentos socialistas do Continente. Carlos Droguett recolhia testemunhos, depoimentos, histórias de infâmia e de sangue. Até então, havia sempre considerado o exílio como um estado de espírito próprio do artista, do escritor. Incapazes de se adaptar a moldes, padrões, ordens e esquemas e, em conseqüência dessa incapacidade, vivendo continuamente uma diáspora. Todavia, ao sair do Chile como exilado, o exílio, para ele, adquiriu uma nova dimensão: Nossa terra circulada por nossas artérias matiza indelevelmente nossos olhares, embaralha nossas lembranças. Fora do Chile, traz o Chile dentro de si. Porém ao pensá-lo, o faz como se fosse algo que um dia existiu. E que somente tornará a existir, para ele e para tantos outros, quando o terrível pesadelo trágico chegar ao fim.

            Na Suíça, onde vive agora, Carlos Droguett escreve furiosamente. Nada quer deixar sem dizer: Não devem existir lembranças mortas, mas a voz massacrada dos que se foram, vozes saídas do silêncio que devem ser escutadas. Porque há também outro exílio. Aquele que sofrem os chilenos que não souberam ou não puderam sair do país. O exílio dos que, sucessivamente, enfrentaram a delação, a prisão, a tortura o desaparecimento, o assassinato e deixaram testemunhos  escritos ou falados de sua passagem pela terra, de sua vertiginosa agonia na cela e no leito de tortura que também eram a sua pátria.
 
            De sua obra,vasta, densa, dura, apenas Eloy foi traduzido para o português e publicado pela Codecri, em 1982. El compadre (premiado na Espanha e impedido pela censura franquista de ser publicado), El hombre que trasladaba las ciudades, El hombre que habia olvidado, Todas esas muertes, Patas de perro (uma das obras primas da Literatura do Continente) continuam desconhecidas no Brasil.

 
O regresso

            Em 1977, num ciclo de palestras sobre a Crítica latino-americana, realizado em Caracas, Mario Benedetti dizia que estavam longe os tempos em que o imperialismo queria  apenas neutralizar  os intelectuais latino-americanos e o fazia oferecendo-lhes regalias das Fundações. Que tal estratégia havia sido mudada para outra, mais eficiente e rápida, a dos esquadrões da morte. Conseqüência lógica da própria transformação dos intelectuais e artistas aferrados a frágeis conceitos de liberdade e que acabaram assumindo ou, pelo menos, compreendendo a liberdade revolucionária. E o argumento maior para confirmar essas palavras seriam os trinta poetas latino-americanos mortos pela repressão e as centenas de escritores e intelectuais exilados.
            O exílio de Mario Benedetti se iniciou na Argentina e depois de uma permanência de um ano em Cuba, ainda se prolongou na Espanha. Em Montevidéu, ele dirigia o Departamento de Literatura Hispano-americana da Faculdade de Humanidades e Ciências. A docência e o gosto pelo livro levaram-no a possuir uma biblioteca de mais de sete mil volumes que deixou para trás ao sair do Uruguai. Sofrimento menor diante dos outros que enfrentava. Pois não trocaria (entre outras trocas) nesses meses de exílio, dois Shakespeare   e três Balzac por um entardecer na praia de Malvin?

            Crítico literário (Letras del Continente Mestizo), contista (Montevideanos), dramaturgo ( Pedro y el capitán), romancista (La trégua), colaborador da  revista Marcha desde 1945 até a sua clausura em 1974 pelo governo militar, Mario Benedetti está de volta a seu país. Para rever as ruas, sentar-se num café  (melhor ainda se estiver chovendo torrencialmente), dar uma olhada no Palácio Salvo. Para reencontrar-se com a sua biblioteca (no caso dela ter sobrevivido à sua ausência e a possíveis  buscas pelo Sistema). E, para sofrer um pouco mais com esses reencontros. Volto e peço perdão pela demora.