domingo, 11 de abril de 1993

As memórias de Silvio Astier

           Tinha Roberto Arlt vinte e seis anos quando o seu primeiro romance El juguete rabioso foi publicado.

 
           Narrado numa primeira pessoa que rotula os seus escritos de memorias, nele são fixados, no entanto, apenas quatro episódios: a rápida aventura de uma gangue juvenil que no primeiro susto com a polícia, correndo em perseguição de um de seus membros, se dissolve; a experiência de um emprego, também de curta duração, numa sórdida loja de livros usados; o fracasso como candidato a aprendiz de mecânico na Escola Militar de Aviação; uma ação traidora aparentemente sem causa.

           Cada um dos quatro episódios constitui um capítulo do romance e a técnica narrativa com que é construído dá, a cada uma dessas partes, um sentido que não necessita das demais para se completar sem que isso impeça que formem um todo.
 
            Nos quatro capítulos, “Los ladrones”, “Los trabajos y los dias”, “El juguete rabioso” e “Judas Iscariote” domina Silvio Astier, o narrador. Revela, na sua narrativa, suas angústias de adolescente, por vezes a sua esperança nesse caminho de pobreza que precisa percorrer em busca de um lugar ao sol.
 
           Incipiente ladrão, explorado trabalhador, fracassado aspirante a mecânico, vendedor medíocre ele quebra essa prisão de um destino vulgar, por um maldoso ato de traição.

           Não será traindo, porém, que Silvio Astier irá, obter o que teria desejado - dinheiro, glória, amor - e a infelicidade daquele que traiu somente vai servir para obter uma promessa da pessoa beneficiada pela sua traição: eu o ajudarei e lhe conseguirei um emprego em Comodoro. O que poderia ser um final feliz para as suas atribuladas andanças: ir para o Sul, para onde haja gelos e nuvens ... e grandes montanhas. Mas, nos episódios anteriores, as promessas que recebera resultaram sempre vãs, cortando-lhe, sempre, a alegria sentida ao vislumbrar uma luz que mudasse a sombria vida de órfão obrigado a ajudar a mãe viúva e pobre. E, agora, esses trinta dinheiros podem significar apenas mais uma esperança perdida.
 
           Por vezes patético ou cínico, infantilmente ingênuo por vezes, é um personagem de intensa riqueza que se move num mundo lúgubre onde existem personagens grotescos mas profundamente humanos.
 
           Em breves momentos, ele vislumbra algo do que é possuido por aqueles que pertencem à outra classe: jardim florido, lustre de cristal, móveis, quadros. Acenos de uma outra vida que, entretanto, só existe para alguns e que jamais será atingida por essa maioria que vive a realidade vulgar de um imutável cotidiano. Neles é que se fixa Roberto Arlt.
 
           E, toda uma visão crítica da sociedade de Buenos Aires é feita em surpreendentes textos que rompem com a narrativa da época.
 
           Em 1926, ano de publicação de El juguete rabioso, também foram publicados Cuentos para una inglesa desesperada de Eduardo Mallea e Don Segundo Sombra de Ricardo Güiraldes que indagavam sobre essa mesma Argentina que está presente na obra de Roberto Arlt.
 
           Mas, se Eduardo Mallea e Ricardo Güiraldes buscavam explicações ou evocavam, o autor de El juguete rabioso constatava um mundo descoberto nos vários humildes ofícios que desempenhou. O que significa que esse seu mundo se inscreve em qualquer espaço do Continente.

domingo, 4 de abril de 1993

O léxico da hipocresia

          Há vinte anos atrás , a Arca de Montevidéo publicava a nona edição de El país de la cola de paja. Na contra-capa, os Editores diziam tratar-se de um dos livros mais polêmicos e atraentes da última década.
 
          E o disseram com muita propriedade porque, antes de ser proibido pela ditadura que se instalou no Uruguai em 1973, quando de seu lançamento em 1960, já havia recebido severos e discutíveis julgamentos dos críticos ao considerá-lo um livro de sociologia.
 
          No entanto, não foi essa a proposta de Mario Benedetti. Romancista, poeta, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, ao escrever El país de la cola de paja ele desejou apenas dizer de suas preocupações pelo que ocorria no país.
 
          O Uruguai era, então, considerado pelos europeus, a Suiça da América Latina. Uma asserção plenamente justificada em práticas inusuais nos demais países do Continente como ensino gratuito, separação entre Igreja e Estado, eleições corretas, analfabetismo quase nulo, eficazes leis sociais, inexistência de descriminação racial e religiosa, liberdade de imprensa.
          Mas, os doze artigos publicados nessa primeira edição e os oito acrescentados na edição de 1970, que tratam do relacionamento instituído entre o cidadão do Estado democrático e a Democracia vigente possuem um denominador comum: uma perspicácia crítica que lhe permite estabelecer reais fronteiras entre o que parece existir e o que realmente existe.
 
          Daí, tornarem-se certas verdades - aquelas  quase sempre  indiscriminadamente aceitas - passíveis de oportunos questionamentos.
 
          Mario Benedetti discute, por exemplo, a elogiosa situação do país quanto ao analfabetismo que no Uruguai, dessa época, praticamente não existia. Mas, acrescenta que saber ler não é, necessariamente, ler. Isto, de fato, leva à observações que se relacionam com as atividades editoriais, a qualidade da Imprensa e as possibilidades econômicas que serão definitivamente responsáveis pela ausência de leitores num universo de alfabetizados.


      O que, sem dúvida, impede que o estabelecido sofra qualquer ranhura - afinal os bons livros tem o defeito de serem intranquilizadores - ao deixar a maioria de seus cidadãos incapaz de cultivar uma visão mais cuidadosa e acurada que lhe dê condições de perceber toda a ambigüidade contida numa democracia - maravilhosa rede de aparências, diz Mario Benedetti, - praticada por democratas de superfície. Aqueles que acreditam “frivolamente” na autonomia da Universidade mas não percebem o interesse oficial em buscar meios para cerceá-la; ou que negam haver descriminação racial no país não ignorando que em Montevidéo existem cinemas e confeitarias onde negros são impedidos de entrar; ou que estão convictos da existência de uma consciência sindical embora saibam que uma ou outra agremiação profissional faça o jogo do patrão; ou que não duvidam que a imprensa seja realmente livre mesmo sem desconhecer que a matéria publicada é apenas aquela que não contraria interesses; e, assim, sucessivamente..

           Incongruências - das quais, certamente, não estão isentas democracias outras - que mostram quanto um conceito pode estar a serviço de inescrupulosas manipulações.
           Sobretudo em países do Continente onde a maior parte da população continua ingenuamente despreparada também para entender o léxico daquele que - “mais iguais do que os outros” - tem acesso à palavra e se serve dela para usufruto de privilégios.



 

domingo, 21 de março de 1993

As maluquices de Paula

          Mi música es para esa gente é o título de um pequeno livro de contos que apareceu, em 1970, pela Monte Ávila de Caracas. Seu autor, o argentino Daniel Moyano, dez anos antes já havia publicado Artista de variedades ao qual se seguiram La lombriz, Una luz muy lejana, El fuego interrumpido, El oscuro.

          Oito contos compõem Mi música es para esa gente e têm em comum o espaço (uma pequena cidade do interior), a intemporalidade (lembranças de um tempo como que suspenso, indeterminado) e personagens perdidos num mundo que parece não ser o deles, em busca de algo, um quase nada tão importante que lhes alimenta os dias: o cão seguindo o raio de sol que se desloca; os dois tipos que Daniel Moyano chama de “equilibristas” à espera, somente, de que os figos caiam de maduros; os outros dois que vivem apenas para a chegada do inverno.

          Nessa galeria, que é de desesperanças, se abre um parêntese luminoso: Paula, a adolescente, que percebe mais do que deve na cidade pequena onde os homens se dedicam a viver de suas rendas e as mulheres a tomar o solzinho nas calçadas.

          Para se libertar e poder olhar um mundo diferente daquele limitado e medíocre em que vive, ela rompe o equilíbrio reinante, ela altera a ordem que existe e que deve, para muitos, permanecer estática.

          O pai, a cada nova travessura, joga nela o que tem à mão. Dono de um restaurante na principal rua da cidade, lhe atira ou uma cebola, ou uma beringela ou colherinhas. Quando a travessura passou dos limites, uma moganga.Não existindo legumes maiores, agressões mais violentas não poderiam, advir. Então, Paula solta os pássaros do Conservatório onde devia estudar música, tira da fonte da praça todos os peixinhos que frita e come, espalha, pela cidade, balões coloridos, inclusive na estátua do touro da qual o pudor municipal havia despojado de sua parte mais nobre.

          Por fim, acabou desfilando nua - moderna Lady Godiva com os cabelos ao vento - pelas ruas centrais da cidade, pedalando uma bicicleta e acompanhada pelo amigo que a protegia do sol com uma sombrinha aberta.

          E é ele, o entregador de pão, que narra as peraltices de Paula. Espectador e companheiro, lhe serve de ajudante e segue as emoções que no seu rosto se deixam ver. Por seus olhos vemos a menina: cabelos soltos, pele branca, sentimentos assomando nos olhos, no ricto do rosto, no gesto.

          Paula, uma “discordância” na pequena cidade. Uma “filha assim” a desesperar o pai, um italiano que atravessara os mares para trabalhar. Uma pequena anarquista de ações gentilmente inofensivas como tomar de assalto o correio e organizar um show na sala principal decorada com selos.
          Ainda um menino, o narrador não compreende todo o significado das ações que ela inventa. Tampouco o alcance de suas palavras.
          Pobre, ele vive num bairro pobre de pátios áridos e crianças descalças. Paula, olhando para essa realidade, que não é a sua, diz: Minha música é para essa gente. E ele não pode entender - até porque Paula só tinha tido uma única lição de música. E essa gente, a qual Paula se refere, é diferente daquela com a qual ela convive e que mal aparece mencionada no relato: jovens que jogam baralho nos bares, Federico que empresta dinheiro a juros e que sai do Banco como um astronauta sai de sua cápsula, intacto e como recém nascido, as damas do Clube da Beneficiência.
         
          Contra eles é que se insurge Paula. Contra eles, lança as suas pequenas maldades, somente invólucros de uma revolta e ânsia de estar longe.
          Na verdade, nada de muito terrível, nada de verdadeiramente maldoso na ingenuidade da narrativa: simples, linear ao contar fatos; velada, por vezes, ao apontar sentimentos.
          Uma narrativa que não esconde, porém, uma intenção que pode parecer apenas levemente corrosiva mas que no conjunto dos contos de Mi música es para esa gente representa somente uma nuança. Um tom entre os mais fortes, os mais cruéis que Daniel Moyano sabe criar a partir da realidade do Continente.

domingo, 14 de março de 1993

Limites

          Exceção feita de um livro de ensaio Historia personal del boom, a obra de José Donoso, chileno nascido em 1924, é essencialmente a de um narrador: contos, narrativas breves, romances.
Iniciou sua carreira em 1955 com Veraneo y otros cuentos mas foram seus últimos romances, El obsceno pájaro de la noche (1970) e Casa de campo (1978) que efetivamente o tornaram conhecido. São romances longos e, tecnicamente muito elaborados, surpreenderam a crítica e resultaram instigantes para os estudiosos da Literatura.
          No entanto, é com um breve e conciso romance El lugar sin límites publicado em 1967 que José Donoso torna inquestionável o seu talento narrativo.
          Como epígrafe, um texto do Dr. Fausto de Christopher Marlowe que lhe inspira o título do romance e o seu tema. : O inferno não tem limites, nem fica circunscrito a um só lugar, porque o inferno é aqui onde estamos e aqui onde é o inferno temos que permanecer
          No romance de José Donoso, esse limite está circunscrito aos arredores de Talca.
          Próximo a seus vinhedos, Don Alejandro Cruz lança a semente de um povoado. Casas se levantam com a esperança de um futuro próspero trazido pela estrada de ferro e pela eletricidade. Os anos passam e a estrada de ferro é preterida pela estrada de rodagem. A rede elétrica não chega nunca. O povoado vai se perdendo na poeira e os que nele permanecem é para um viver sem futuro.
          Don Alejandro Cruz, compreensivamente se oferece para comprar as casas encobrindo o intento de aumentar seus já imensos vinhedos.
          E é nesse espaço do Continente, em terras ao sul de Santiago  abandonadas por seus habitantes  para tentar a vida mais adiante, onde as paredes e os muros são devorados por ervas daninhas, onde as casas estão vazias e as ruas, povoadas, sobretudo de buracos e pedras; onde há vinhedos de um só dono que se perdem de vista pelos quatro horizontes é que se move Manuela, centro da narrativa.Um personagem homossexual literariamente construído com maestria cuja riqueza consiste na inusitada ambigüidade que se expressa no dizer e no narrar,  revelando um ser marcado por circunstâncias incomuns sem incorrer no grotesco ou na pieguice.
          Sobre ele, principalmente, recai a violência  instaurada na sordidez do bordel. Nele, como em tantos, que só queria cantar, rir e ser feliz.
          Uma cara enrugada como passa de uva, fossas nasais negras e peludas como de égua velha, dentes postiços, ossos doloridos. Destruído pela vida, Manuela é como esse povoado em que vive. Condenados, ambos a uma asfixia  determinada pelos poderosos.
          E, assim, para Manuela o inferno são os outros. Para Manuela que habita o Continente, o inferno  também pode estar nesse lugar em que lhe foi dado viver: uma casa semi-derruída onde entra a chuva e o vento. Um povoado que morre de miséria.
          Além de seus limites estão as vinhas e a riqueza.

domingo, 7 de março de 1993

Melancólicas rosas

           Autor de contos que foram reunidos em Corpo e Sombra (Movimento, IEL, 1977), O homem que amava cavalos (Movimento, 1983) e A noite do Homem-Mosca (Tchê, 1989), Laury Maciel, gaúcho de Taquara, estréia no romance com  Noites no sobrado (Mercado Aberto) . Publicado em 1986 é o primeiro romance de uma trilogia, cujo segundo volume  Rosas de papel crepom apareceu no ano passado também sob a égide da Mercado Aberto de Porto Alegre.

         Derrocada social e psicológica de uma família do interior do Rio Grande do Sul é dito na apresentação do livro pela Casa Editora. E o romancista gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, por sua vez, dele diz que se trata de um livro que, mais do que um romance íntimo é um romance de apreciável cariz político. Os anos ali tratados correspondem a um período em que a atividade pública era considerada como uma espécie de sedutor jogo de forças onde havia lugar - ainda - para o idealismo e figurantes carismáticos, cândidas velhacarias, comícios arrebatadores.
São os anos trinta. O golpe de Estado leva à demissão de todos os dirigentes para que possam ser nomeados os Interventores.


O coronel Jacob Bremen, Prefeito de Mundo Novo, porém, convicto de que eleito pelo povo não deve entregar a Prefeitura de onde, no seu dizer, somente sairá morto. Em discursos inflamados, convida o povo a defender a legalidade. Muitos acorrem e enfrentam as forças do novo governo e no ataque à Prefeitura rebelde e na sua defesa, morrem alguns. O Prefeito, cercado, entrega egue para a Capital e, também preso, Severino Cascata.


           Severino Cascata cuja única luta, até então, havia consistido em escrever um romance folhetinesco que girava, unicamente, em torno de patéticos e desastrados amores. Mas, alguém o delatara e fora o suficiente para ficar preso, incomunicável e sem defesa porque o advogado contratado não tinha acesso aos Autos.

           Nada foi apurado, mas enquanto se arrastava o inquérito, Severino Cascata sofria na prisão.
           E, numa noite, ele chega de volta em casa feito um farrapo: o cabelo desgrenhava-se até as orelhas, a barba crescida, os olhos encovados, as faces sumidas, as calças e o casaco rotos.

           E houve choro e beijos e abraços para recebê-lo. Banhou-se, dormiu, no dia seguinte foi em busca da mulher por quem estava apaixonado. E retoma seus hábitos como se tivesse esquecido as arbitrárias injustiças e maus tratos que recebera.

           Dos demais presos nada se sabe, os mortos foram enterrados e chorados e Mundo Novo se submeteu às “novas leis” instauradas no país.

           E Ana, Arthur Bayer, Umbelina, Esteban, Maria Pia, nada ou muito pouco perceberam do que acontecia ao seu redor, vivendo, como o assinalou Sergius Gonzaga no prefácio de  Rosas de Papel crepom, as suas pequenas tragédias.

           Pequenas tragédias amorosas, centro de vidas que se estiolam nesse reduzido ambiente de cidade pequena do interior. Insinuação possível de uma geografia mais ampla, em que os acontecimentos primordiais dos destinos de um país parecem nada mais ser do que pano de fundo de um cotidiano inexpressivo e sem futuro. Que no entanto, talvez seja suficiente para os habitantes do Continente que, mergulhados na indiferença ou na impotência, só esperam e só aceitam filialmente, as soluções prontas oferecidas pelas Instituições.

           Mas, Rosas de papel crepom, se inocente, também é romance de paixões, representação de um universo interiorano, esboço de um momento político, habitado por personagens que enfrentam sentimentos românticos aparentemente ultrapassados e feito de situações tristemente cômicas. E Laury Maciel, um ágil e arguto narrador.

domingo, 28 de fevereiro de 1993

Um indianismo precursor

          O autor lhe dá como sub-título novella rio-grandense quando a publicou, no Rio de Janeiro, em 1847. Situa sua ação em Porto Alegre e seus arredores e o personagem central, Almênio, é apresentado como monarca  termo que Luiz Carlos Moraes no seu Vocabulário sul-riograndense define como indivíduo orgulhoso, franco e alegre, amante da liberdade e inimigo dos preconceitos. E, num claro intuito de registrar o universo sulino, insere no texto nomes de plantas (timbaúvas, cedros, grapiapunhas, butiazeiros, trepoeraba, azedinha, sarandim), de peixes (jundiá, piava, traíra) e de pássaros (sabiá, virabosta, gaturamo, pintassilgo) e, também, termos referentes aos costumes dos homens do sul, dos quais, por vezes, explica o significado em notas de rodapé.



         Recursos que Antonio do Valle Caldre e Fião emprega na sua narrativa, para retratar o Rio Grande do Sul numa preocupação que se enriquece quando nela insere um discurso político que está centrado na Revolução Farroupilha e na conquista do Continente pelos europeus. Monarquista e contrário à Revolução Farroupilha, publicando o romance dois anos depois do término da luta, as palavras com as quais condena a guerra fratricida, ainda podem soar como um verdadeiro proselitismo sejam elas pronunciadas pelos personagens ou pelo próprio autor que, freqüentemente, insere na narrativa suas idéias ou sentimentos.

          Assim, contra a Revolução Farroupilha são as palavras de Almênio, de sua prima Adélia e de Hendrichs para quem a revolução é flagelo imenso para todos os povos. Para o autor, trata-se de explosão espantosa a eclosão da Revolução Farroupilha em 20 de setembro de 1835 pois, firmemente acredita que seus motivos foram muito mais de ordem pessoal - ouro e glória - do que verdadeiramente a glória da pátria.
           A conquista do Continente pelos europeus está presente em dois episódios da narrativa e expressa nos monólogos de João e de  Kajururá, personagens de histórias que se acrescentam ao enredo central do romance.

          João, em meio a um passeio pelos campos com a família, às margens do rio Gravataí, lembra de outros momentos em que, também às margens de um rio, o Caí, contemplava as árvores e vinha-lhe à mente o extermínio dos habitantes do Continente pelos europeus da Conquista. Eu meditado tenho largamente e quis mesmo, em outros tempos, achar nos recônditos arcanos dos destinos das nações uma causa dessa revolução de sangue e morte operada na América por esses infames estrangeiros, mas uma voz me gritava, sem cessar ao ouvido, e essa voz os acusava altamente.Os assassinos têm sede de ouro diz ele entre as numerosas palavras de acusação aos usurpadores.
          Outro episódio da Divina Pastora reafirma essa idéia de aniquilamento sofrido pelos primeiros habitantes do Continente que não se ateve somente à perda da terra e das riquezas mas, sobretudo, à perda de identidade.Na história de Kajururá, o que prevalece é a derrota. Chefe dos Tapes e dos Minuanos, livre e corajoso guerreiro, circunstâncias pessoais o levam a aceitar a fé cristã. Submetendo-se assim aos conquistadores, é abandonado pelos seus que se dispersam.

          Na voz de Paulo, um dos ouvintes da história, está evidente o pensamento de Caldre e Fião: Na verdade, é muito interessante esta historieta; qualquer estadista que sobre ela refletisse tiraria uma lição proveitosa; vede, meus filhos, que uma reforma repentina acarreta a destruição de um povo inteiro ainda o mais numeroso e bem regido da terra. Kajururá era de todos os caciques brasileiros o único que podia suspender o curso das vitórias dos portugueses e destruir seus planos de conquistas, mas uma só mudança em seu estado de vida, uma só “reforma” em sua mente, transtornou toda a esperança dos filhos dos indígenas e apagou o luzeiro brilhante de nossa pátria.
          Nestas duas passagens está claramente anunciada uma posição crítica em relação aos conquistadores que mostra um Caldre e Fião avançando sobre sua época pois seria necessário que muito tempo transcorresse para, enfim surgir na Literatura brasileira uma ficção independente da ideologia colonialista em relação aos indígenas. Deveras importante, então, são essas palavras de arguta lucidez que se sobressaem num romance preso a cânones éticos tradicionais.
          O professor Guilhermino Cesar, ao situar Antonio do Vale Caldre e Fião como autor do primeiro romance rio-grandense, lhe atribui também o mérito de ser um dos criadores do romance nacional.
          No entanto, ao escrever a História da Literatura do rio Grande do Sul onde defende esse lugar de precursor para Caldre e Fião ele não tinha em mãos A Divina Pastora que ainda estava desaparecida. Agora, a RBS, ao resgatar essa “obra perdida”, deu aos estudiosos da Literatura brasileira a possibilidade de conhecê-la.
          Certamente, uma análise cuidadosa lhe concederá, também, o mérito de abordar temas, sem dúvida, polêmicos para a sua época e, em relação a eles, ter-se claramente posicionado.
          Uma rara qualidade que, salvo poucas exceções, tem estado ausente, ao longo dos anos, da ficção brasileira.

domingo, 21 de fevereiro de 1993

Regionalismo:primeiros momentos

          José Antonio do Vale Caldre e Fião, gaúcho de Porto Alegre publicou no Rio de Janeiro onde foi estudar Medicina, dois romances: A Divina Pastora em 1847 e O Corsário em 1851.

          Curiosamente, as duas obras foram, ao longo dos anos, de difícil acesso. O Corsário, inexistente nas Bibliotecas Públicas do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul foi localizado pelo professor Guilhermino Cesar na biblioteca particular do senhor Olyntho Sanmartin o que permitiu que lhe dedicasse um capítulo na História da Literatura do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, Globo, 1971 cuja primeira edição foi em 1955).

          A Divina Pastora que permaneceu um verdadeiro enigma bibliográfico durante 145 anos foi, finalmente, encontrada no ano passado por um livreiro de Pelotas, Adão Fernando Monquelat.

          E, por fim, os dois romances precursores do gênero no Brasil foram postos à disposição dos leitores: O Corsário, publicado pela Movimento e A Divina Pastora, planejado e executado pela L&PM, editado pela Palloti de Santa Maria, especialmente para a Rede Brasil Sul - RBS proprietária do volume original de 1847.

          Em ambos, cada página deixa transparecer o amor que o escritor devota por sua terra natal. Embora longe do Rio Grande do Sul é em Porto Alegre e seus arredores que se passa a ação da Divina pastora; e no litoral próximo a Tramandaí, aquela de O Corsário. Também nos dois romances, diz Guilhermino César, referindo-se ao O Corsário, perpassa o sopro épico da luta farroupilha.

          Mas, cabe à Divina Pastora, publicado quatro anos antes que O Corsário ser a precursora de uma ideologia regionalista que se instalaria mais tarde na Literatura do Rio Grande do Sul e das quais iriam se originar textos verdadeiramente ímpares.

          O professor Flávio Loureiro Chaves em “Um texto resgatado”, Introdução à Divina Pastora (Porto Alegre, RBS, 1992), observa que essa ideologia regionalista estará presente em vários momentos do primeiro romance de Caldre e Fião e que, embora sem empregar o termo gaúcho e sim rio-grandense monarca das coxilhas, ele irá fixar-lhe os trajes e os hábitos e compor-lhe a figura protótipa - e corajoso e audaz e viril e hospitaleiro - que constituir-se-á, um pouco mais tarde, presença na ficção brasileira.

          Em A Divina Pastora não se trata da criação de um tipo gaúcho. Almênio, o personagem masculino que, de certo modo, conduz a ação do romance, não é, como os demais personagens, habitante da campanha, nem se dedica às lides campeiras.No entanto, a primeira vez que é visto pela jovem com quem irá se casar, usa o traje de monarca, termo que aparece grifado e que uma nota de rodapé do professor Flávio Loureiro Chaves esclarece tratar-se de acepção plena de gaúcho, dominador do meio em que vive, possuidor da melhor montaria, ajaezada com prataria e ouro. E assim, sinônimo de indivíduo destemido, orgulhoso, elegante e livre. Mas, na verdade, não será no personagem que o romancista irá se deter para falar do Rio Grande do Sul e sim na paisagem, na menção de suas árvores e de seus pássaros e de seus costumes e nas palavras com que define seus habitantes.

          Para Caldre e Fião, o rio-grandense é orgulhoso, altivo, forte nos combates, amigo fiel e inimigo implacável, o hospitaleiro por excelência.

          E o romancista considerando que já possui alguns quesitos necessários a um historiador, abandona o seu papel de ficcionista para se permitir supor que essa maneira de ser é devida a uma alimentação sadia e frugal, à uma educação moral em que o Rio-Grandense aprende, desde os primeiros passos a respeitar os velhos, a ser amigo, a desprezar o covarde e a vingar-se do inimigo; guarda fiel os usos que lhe foram transmitidos por seus pais e julgar-se-ia desonrado se um dia deixasse de cumprir os preceitos de seu evangelho.

          Como epígrafe, na própria capa do livro aparece a quadrinha: Cantando a virtude / Na terra natal, / Sorri-me o prazer, / De mim foge o mal que já é uma afirmação dos sentimentos que norteiam o escrever de Caldre e Fião, alimentado por lembranças autobiográficas, por reflexões morais e pedagógicas, por preocupações com o fazer ficcional, por histórias que se acrescentam à história principal.

          Um escrever preso sempre a esse espaço geográfico preciso que o sub-título do romance anuncia: Novella rio-grandense.

          De volta ao Rio Grande do Sul, Luiz Antonio do Valle Caldre e Fião se deixou absorver pela Medicina e sua dedicação não lhe deixou mais tempo para as Letras.
          Sua carreira de ficcionista se encerrara.