domingo, 2 de dezembro de 1990

Olhos de menina

            Inserido num texto que narra o cotidiano de uma menina, o atentado do dia 9 de abril de 1948, em Bogotá, e os acontecimentos que a ele se seguiram.

            A narração – construída em pequenos textos objetivos e sintéticos, antecedidos de uma marcação de tempo precisa – se inicia com um fato aparentemente sem importância, a chegada de Jorge Eliécer Gaitán a seu escritório às  oito e trinta da manhã.  Continua em mais nove parágrafos até chegar às quatorze horas e cinco minutos, quando morre, vítima de um atentado político, assassinado, como disse um homem do povo, por um  “João Ninguém”.

            No romance, são diferentes vozes que se entrelaçam para reconstruir esse episódio de violência e a violência que dele se originou. E o que aconteceu adquire distintos tons: a primeira dama do país se confessando “desagradavelmente surpresa” ao saber da morte de Gaitán; uma senhora da elite econômica se lamentando de que as coisas  estejam acontecendo exatamente no dia em que iria se apresentar no teatro Colón um afamado cantor; Sabina, uma empregada doméstica, murmura rezas e  acende velas a mando da patroa. E o jovem do povo, levado de roldão à luta armada, testemunhando o horror da frente de combate. Entre essas vozes e tantas outras, a de Ana. Ela  está no terceiro ano da escola primária, já sabe ler e somar. Em meio aos interesses próprios de sua idade ( deliciar-se com goiabas, ganhar a medalha de primeiro lugar, assistir filmes do Gordo e o Magro, comer a merenda), participa, ainda que protegida pela distância, do medo e das dúvidas que dominam a família e a cidade.

            Na escola, as freiras, nervosas  mudam as normas no que se refere à ida para casa: que as meninas não formem fila por ano, como sempre mas, a partir da direção da cidade onde moram; que as mais velhas cuidem das menores e que tão logo saiam do colégio corram o mais depressa possível. É claro que, no lufa-lufa, houve quem deixasse cair os cadernos e quem tivesse medo de que lhe matassem o pai.

            Para Ana, ao chegar em casa, correndo, as reprimendas: como dar ponta-pé no portão? Não lhe ensinaram que se toca a campainha? Ou, ao pedir, faminta, a merenda, receber como resposta que não é hora  de pensar em merenda. E, incompreensível para ela, a incoerência dos adultos  ao determinarem que o momento era grave demais  para lhe matar a fome enquanto, nervosamente, providenciam a compra de muitos gêneros alimentícios antes que a turba saqueie tudo.

            Assim, enquanto a cidade é saqueada, enquanto a multidão se embebeda e cadáveres se espalham pelo chão, enquanto a rádio incita o povo às armas, as perguntas de Ana  vão ficando sem resposta. Somente se lembram dela para  lhe mandar tirar o uniforme.

            Sem muito entender do que se passa – a morte do chefe do “grande Partido Liberal”, as cabeças penduradas nos postes, o medo dos adultos – os sete ou oito anos de Ana darão  o testemunho de um caos que foi vivenciado por Alba Lúcia Angel, romancista colombiana nascida em 1939.

            Ao escrever, entre 1971 e 1975, Estaba la pájara pinta sentada em el verde limón, ela retoma as questões, cujas respostas, provavelmente, também foram escamoteadas quando tinha a idade da sua personagem. E se inscreve entre os escritores que assumem um compromisso com a realidade de seu país, buscando novas formas que possibilitem a compreensão de sua história.

            Daí  esse seu romance conter não somente o atentado do dia 9 de abril de 1948, inserido no cotidiano de uma menina, mas, talvez,  principalmente, o cotidiano de uma menina inserido na violência instaurada, em Bogotá, no dia 9 de abril de 1948.

domingo, 25 de novembro de 1990

Um mundo desejado



            Em outubro do ano passado, numa edição bilíngüe, a Editora da Universidade Federal de Santa Catarina, publicou Contos da Selva de Horacio Quiroga. O escritor uruguaio havia escrito esses contos para seus filhos e os fora publicando em periódicos até que, em 1918, apareceram em livro editado pela Sociedad Cooperativa Editorial Limitada “Buenos Aires”.

            Juntamente com inúmeros artigos sobre a fauna da região missioneira argentina e sobre a erva-mate, a criação do bicho da seda, o cultivo da mandioca e a  destilação da madeira, esses contos são resultado da vida que passou na selva.

            Uma vida que escolheu ou que foi levado a escolher. Depois de estudos que não completou, depois de escrever versos modernistas e de ir a Paris e de pertencer a um círculo literário de Montevidéu, a tragédia de ter matado, acidentalmente, um de seus melhores amigos, o levou ao auto-exílio.

            Inicialmente, nos primeiros anos de 1900, viveu no Chaco argentino, perto de Resistência onde plantou algodão numa época em que não havia para isso apoio governamental e nem interesse pela  fiação. Mais tarde, se instalou na região das Missões, dedicando-se ao cultivo da erva-mate. O que era feito primitivamente, ele tencionou realizar com método. Mas, foi a época em que aqueles que industrializavam a erva-mate na Argentina, se abasteciam no Brasil e no Paraguai. Então, Horacio Quiroga se lança na venda de laranjas, na produção de sucos, na destilação de azeite.

            No entanto, apesar de sua imensa capacidade de trabalho e do entusiasmo pelo que fazia, seus empreendimentos, por uma razão ou por outra, fracassaram sempre. Como diz Philippe Humbé na orelha da edição brasileira de Contos da Selva: escrever contos para manter plantações não podia dar muito certo. Certo foi, então o quê Horacio Quiroga. Textos que o situam entre os mais expressivos escritores do Continente.

            Ainda que desconhecido do grande público e, sem dúvida, apenas conhecido de alguns críticos literários, sua obra atravessou as fronteiras. A professora Tânia Piacentini que traduziu Contos da Selva para o português encontrou edições de suas obras no México, Venezuela, Chile e Equador. No Brasil, em 1977, Salim Miguel publicou em Ficção, o conto “Os desterrados” e, em 1981, a Rocco publicou Anaconda.

            Contos da Selva se compõe de oito relatos para crianças. Dois deles, são histórias de animais. “A abelha preguiçosa” conta a luta de uma abelha para se salvar num momento de perigo e, então, compreender a necessidade de trabalhar como as outras o quê, até então, não fizera. “As meias dos flamingos” é uma fantasiosa explicação para a cor das pernas  e para o hábito que tem os flamingos de ficarem longo tempo apoiados numa perna só.

            Assim como as abelhas falam e como falam os flamingos nessas duas histórias, nas outras seis os animais também falam. E, não apenas entre si, mas com os humanos. No conto “A guerra dos jacarés”, os homens destroem o dique construído pelos jacarés para impedir a navegação perniciosa que espantava os peixes. Em dois contos, os animais já domesticados, sofrem danos de outros animais selvagens e procuram voltar para junto dos humanos que os tratavam bem e com os quais haviam aprendido a se comunicar.

            Duas histórias tem por personagens homens solitários que vivem em meio à natureza e quando em perigo de vida são salvos por animais .Em outra, é o animal em dificuldades que busca o auxílio do homem e o recebe.

            Muito embora, nesses contos, por vezes sucedam mortes, elas são conseqüência de uma luta, de um enfrentamento cujo motivo se inscreve na lógica da luta pela sobrevivência. Assim, o homem mata tigres para se defender, um navio é destruído pelos jacarés e apenas o velho jacaré desdentado devora um dos adversários: o oficial com galões de ouro na roupa e que dera voz de ataque.

            E o equilíbrio retorna sempre. Com exceção das aves que nunca mais se libertaram dos danos sofridos no conto “As meias dos flamingos” e do quati, vítima  da picada de uma cobra do conto “História de dois filhotes de quati e dois filhotes de homem”, todos os demais têm final feliz.

            O que, no entanto, não significa uma visão de mundo idealizada, simplista ou ingênua.

            Certamente, Horacio Quiroga desejou dar lições a seus filhos. Então, fez falar os animais, fez com que valessem para eles as virtudes que se espera encontrar nos homens. Mas, debatendo-se entre as normas que regem o cotidiano dos homens, solitário  entre os humanos, vencendo, poucas vezes, a muralha da solidão, sobretudo, ele inventou um mundo no qual a gratidão, a fidelidade e o altruísmo fogem das barreiras do impossível para existir na ficção dos animais que falam.

            Refúgio em um mundo desejado.

domingo, 18 de novembro de 1990

"Nada do exterior me acontece"

            O mundo não o deixou ficar indiferente. Tanto fez, tanto insistiu que Mário Quintana foi obrigado a percebê-lo e escreveu: Não sei por que diziam que uma humilde cidadezinha / Tinha, por exemplo, umas quinze mil almas.../ Almas? Hoje, o que elas têm são quinze mil bocas ,/ Loucas de fome.  O título desse poema é “Censo demográfico”. Como o primeiro verso de “Um simples lugar comum”  assim, tão incisivo sobre a fome do Continente (Todos esses roubos, todos esses assassinatos vem apenas da fome) é um momento incomum na obra do poeta.  Esses dois poemas, inéditos como os outros setenta e três, formam o livro Velório sem defunto que a Mercado Aberto, de Porto Alegre, acaba  de publicar.
 
            Dos poemas, alguns são muito pequenos, como “Amanhecer”, feito de dois versos: O sol derrama, na calçada ,/ A sua bela, matinal urinada.  Outros, são mais longos, variam entre nove e doze e, só excepcionalmente, quinze versos. Como, por vezes, se formam de versos  longos (mais de vinte sílabas) inspiraram, sem  dúvida, essa composição gráfica que rompe com o esquema tradicional de leitura uma vez que, para realizá-lo, o livro deve ser folheado de baixo para cima ao invés  de sê-lo da direita para a esquerda. E apenas nas suas páginas ímpares.

            O gesto, prazerosamente inusitado para o ato de ler, busca, no entanto, o conhecido gosto da poesia de Mário Quintana e o encontra. A poesia que ele arranca do cotidiano  ampliada em lembranças e em descobertas – como sempre tem feito – e continua a se contaminar de interrogações e de certezas que são as interrogações e as certezas dos humanos ou de alguns privilegiados humanos.

            É uma mesinha de pinho;  a empada de camarão, sem camarões; é a perda de um amor adolescente; a figura do avô para os olhos infantis;  Aquela janela acesa/ No casario/Sou eu..., uma descoberta acaso flaubertiana que irrompe no poema “Noturno”;  as perguntas sobre a vida  e sobre o seu sentido;  a curiosidade em saber qual é o seu melhor poema; e aquela relacionada com o outro ou com si mesmo: E como fazer para que não me esqueças/ (ou eu não te esqueça...).

            E, as incertezas. Onde cabem Deus, Cristo e o amor. Um Deus que, para o poeta nunca existiu e que, de vez em quando, lá está, presença viva, num verso. Um Cristo que, partindo da terra a libertaria de proibições. Amores que são ausências, abandonos.

            Um mundo espiritual (alguém diria) de negativas. Para fazê-lo viver, a poesia. Nela, o tempo não existe diz Mário Quintana. Nela, tudo permanece, ele diz. E nessa Arte Poética que se insinua de vez  em quando nos poemas, ele constata: Esses poetas que tudo dizem / Nada conseguem dizer: / Estão fazendo apenas relatórios....

            Mestre de ligeiros tons, de palavras poucas, de expressão ironicamente ingênua, Mário Quintana, um terremoto na alma, afirma que Nada do exterior me acontece.

            E, desse mundo que nos rodeia,  ele nada (ou quase nada) conta. As vezes, apenas diz de um tom argentino:

                        Nos solenes banquetes de próceres internacionais
                        - em especial sobre desarmamentos -
                        O aparte mais espontâneo
                        É’ o riso de prata de uma colherinha
                        Que por acaso tombou no chão.

domingo, 11 de novembro de 1990

Miguel Cara de Angel

           No ano de 1967, o guatemalteco Miguel Angel Astúrias recebia o Prêmio Nobel de Literatura
com o romance El Señor Presidente, um livro perfeito e terrível como poucos. Em se tratando da Literatura do Continente, tão pródiga em textos que expressam a violência, trata-se de uma obra que contém, talvez, os textos mais sombrios e cruéis sobre os meandros de uma ditadura e sobre a desintegração física e moral de um cidadão dessa ditadura.

            Entre os muitos personagens do romance, destruídos pela vontade onipresente e absoluta do presidente, um deles, Miguel  Cara de Angel é aquele que  sofre todas as degradações a que podem estar sujeitos os que habitam esses espaços que se constituem “territórios de ninguém”, porque, afinal, são territórios que pertencem a uns poucos. Ele  é belo, rico e tem nas mãos o poder fácil, irresponsável daqueles que aceitam ser cognominados favoritos.

            Pouco se conhece de sua vida a não ser que tem caminho livre junto ao presidente. Também se ignora se é feliz. Porém, no momento em que toma consciência do sentimento por  Camila e em que presencia o seu sofrimento, a sua aproximação da morte, presa no terrível círculo que a envolve, aceita, finalmente, a lucidez da qual, por interesse, até então fugira.

            Passa  a ser, então,  intensamente, dominado pela angústia mas, apenas, nos raros instantes em que o amor lhe permite voltar-se para algo que lhe seja estranho. Ou seja, a angústia que o atormenta é pelo ser que ama, pelo medo de perdê-la, de ter a própria felicidade destruída. O que se passa a seu redor continua a perceber  apenas  como sombra e névoa.

            Ao imaginar a possibilidade de fugir,  apenas pensa em correr, voar, salvar-se. Mas, prisioneiro daquele a quem uma vez salvara a vida, é torturado, atirado sobre o esterco num trem cuja viagem não tem retorno.         Passa anos  no calabouço, incomunicável. Seu corpo sem ar, sem movimento, reumático, padecendo nevralgias errantes, quase cego, se desintegra. A angústia do espaço limitado, da irremediável falta de liberdade, da solidão, não consegue, no entanto, tirar-lhe o alento, mantido pela esperança de rever Camila. Mas, não  apenas essa esperança lhe é arrancada, como a própria imagem que restava dela é enlameada, ultrajada, conspurcada.

            Na imundície, na desolação, no desamparo total do homem que em meio a uma incomensurável miséria, ainda recebe algo para torná-lo mais miserável, - a certeza de uma traição – Miguel Cara de Angel morre.

            O ciclo degradante do usufruto do Poder para a condição de vítima desse mesmo Poder,  se completara.

domingo, 4 de novembro de 1990

A casa


            Ela tinha sessenta e oito anos quando começou a morrer. Era  muito bela, faustosa, rica, imponente. Fora construída por um senador da República, de bela voz e dominado por um incontido fraco pelas mulheres. No jogo da conquista amorosa, lhe era igual recitar os versos de Espronceda para a mulher de um colega do Senado ou para  uma criada. Na casa, ele viveu e seu filhos e netos.

            Das mãos cuidadosas que a planejaram e adornaram com objetos caros e preciosos, a casa passou para outras, indiferentes, que a venderam a estranhos. Começa, então, o seu fim. Arrancam-lhe o mármore das escadas, vendem-lhe a suntuosa porta da entrada, fazem cair o teto e as paredes. Nesses dias que antecedem o seu desaparecimento, em que os operários a invadem, martelando, golpeando, desfazendo, a casa quer falar. Contar dos anos que já passaram, de suas alegrias e tristezas e sustos que  são, também, aqueles sentidos pelos membros da família que nela vivera.

            A partir das peças que descreve – o saguão, os quartos, a sala de jantar – aparecem os personagens e, com eles, as cenas, os hábitos, os dramas, algum fato impossível de esquecer.

            O luxo do casarão se apresenta como o cenário perfeito para o papel que aqueles que o habitam representam: o senador a treinar os seus discursos, diante da estátua do velho fauno, no jardim. O filho Gustavo, formando com a mulher o casal mais chique de seu tempo; Francis, o neto,  que trás a elegância dentro da alma.   E Clara, a mulher, linda e obesa. Fechada, depois de viúva, no quarto japonês cujo estilo, ditado pelos Goncourt irá provocar, anos depois, o desprezo de Francis, a solidão a fará buscar consolo num sem fim de imagens católicas que, então, se acoplam a esse cenário oriental. No amontoado de figuras de gesso, estampas, oleografias,  talhas da Virgem Maria, São José, São Roque, São Judas Tadeu, São Pedro de Alcântara que a aproxima da religiosidade latina, se encontra a única expressão de um sentir próximo do Continente.

            Porque a casa, na sua concepção e nas suas linhas e nos seus detalhes,  copia alguma outra ou algo de alguma outra do Velho Continente  E’como se estivéssemos em Paris, exclamam os visitantes. Impressão que se prolonga nos jardins onde se erguem, entre as plantas, estátuas de inspiração clássica e nas escadarias ornadas de um nicho a abrigar uma cena bíblica;  também, na sala de jantar, magnífica, onde sempre um conviva, ao levantar os olhos para o teto, admirado,  observa: Mas... é um teto italiano!.

            E aí, nessa submissão ao gosto ou ao que se presume ser o gosto de além-mar, estaria contido um dos traços mais profundos dessa elite alienada e a  procurar, alhures, a sua identidade. E a voz do casarão da “calle Florida”, ao esboçar-lhe o perfil no relato dos sucessos que, ao longo dos anos presenciou, espelha à perfeição, as suas imagens ridículas e ultrapassadas  (mas ainda vigentes), sugerindo, então,  umas quantas perguntas a induzir a outras tantas respostas. E, fazendo   com que La casa de Manuel Mujica, publicado em 1954,   seja, na verdade bem mais do que  um  simples livro  “singular e atraente” da Literatura Argentina. 

domingo, 28 de outubro de 1990

Quando o monólogo é preciso


            Isabel e Idolina, Julia e Mercedes. Quatro destinos privados de horizontes numa estrutura social extremamente conservadora e religiosa.

            Ciudad Real se encrava no vale, fundada por espanhóis na Península de Yucatán, próximo à Guatemala. Apesar do nome, é uma pequena cidade, orgulhosa dos que nela nascem e da língua que falam. Suas mulheres, modestas e castas, se encerram nos solares avoengos e os dias amanhecem e anoitecem sem que suceda outra coisa senão suas mudanças de luz. O quê pouco importa para as mulheres que olham a vida através dos cristais das janelas e evitam o sol para preservar a brancura da pele. E, assim pouco importa, também, para Isabel ou Idolina.

            Isabel Zebadua pertence àquelas famílias cujo nome é “um talismã”. Usá-lo, significa prescindir de qualidades pois a sua posse, de per si,  tudo garante: nenhuma crítica pode alcançá-la, nenhum elogio enaltecê-la ainda mais.

            Sem o amor do marido, interessado em qualquer outra, sem o amor da filha, criada por uma ama, ela prefere estar no  quarto de costura, pensando nas suas desditas.Quando delas fala para a filha, não obtém resposta; quando delas fala para o marido, acaba calando. Então, murmura consigo mesma sobre a humilhação de ser  traída com as índias  ou com uma branca sua igual para concluir que, finalmente, nada está a perder porque, há muito, o marido já não lhe pertencia e que, tanto faz que delapide o seu capital porque dela não irá obter ajuda, mais tarde, quando vier pedir.

            Idolina é a filha enferma que jamais abandona o leito. As confidências que a mãe faz, buscando consolo e perdão pelo abandono a que a havia condenado, só obtém, como resposta,  o silêncio. No íntimo, se regozija pelo fracasso amoroso da mãe e se sente vingada de suas ausências, de ter sido delegada a uma índia que não somente a amamentava como lhe dava todos os cuidados . E seus próprios medos e angústias – deseja se queixar, protestar – não têm a quem se dirigir. Enche uma página e outra com sua letra grande e desgovernada, daqueles acostumados a outros afazeres. E’um grito tumultuoso, uma confissão infantil, o último grito de quem se afoga. Quando termina, está ofegante como se tivesse feito um grande esforço físico. Dobra os papéis e os guarda num envelope. Somente então, se dá conta que não tem a quem dirigi-los. Por isso, o destrói na chama da vela.

            Julia é a forasteira que chega na cidade. Não é casada com o homem com quem vive e aspira pertencer ao círculo das senhoras ricas e respeitáveis. Não o consegue nem com a simpatia, nem com a insistência. Somente uma complicada “rede de evoluções e táticas” lhe fazem chegar as visitas que desejara. Mas, nos seus salões, as mínimas normas sociais são desrespeitadas e ela, a anfitriã, mantida fora do círculo das conversações. Quando pretende rompê-lo, aventurando-se numa pergunta, a resposta lhe é dada vagamente ou com impaciência como se a sua curiosidade não fosse lícita nem oportuna. Ao sair a última convidada, Julia mensura, então, seus esforços e os resultados e, sozinha, se pergunta se vale a pena se empenhar tanto  em penetrar num mundo tão fechado, galgar uma hierarquia tão inacessível.

            Mercedes, que na sua juventude ofertava seus favores dentro  de casa, como uma rainha, vai envelhecendo e se perdendo. Um dos homens a quem iniciou nos jogos amorosos, agradecido, a mantém como alcoviteira o que não impede que esteja marginalizado de tudo. Mesmo aqueles que, ainda, a cumprimentam, em lembranças de antigos tempos, o fazem medrosos de serem vistos. O temperamento alegre de Mercedes, porém, não se habitua a esses silêncios, impostos pelas circunstâncias  e, para espantá-los inventa um vago auditório a quem vai contando seu passado e comentando coisas do presente.

            Ou porque não se submetem aos deveres familiares – Isabel não assume os encargos maternos, Idolina ignora o afeto filial – ou porque as normas sociais impedem o acesso ao círculo dos eleitos àquelas considerados marginais – Julia por não ser casada, Mercedes por seu “ofício”- são mulheres condenadas à solidão.

            Personagens de Oficio de tinieblas ( México, 1962), romance que mesclando a ficção e a crônica fala de um mundo que tem sido sempre o mundo dos latino-americanos, dividido  em pobres e ricos, em brancos e índios, em trabalhadores e ociosos. Nesse mundo, os personagens femininos também estão impregnados dessas dicotomias e, ainda,  daquelas  advindas das estruturas familiares e sociais e das relações que nela se estabelecem.

            Qualquer que seja a cor de sua pele, a classe a qual pertence, o poder econômico que possua  esse personagem feminino será mantido, embora tenha voz e queira usá-la, com as palavras na garganta.

            No seu romance, Rosário Castellanos, romancista do Continente, quis livrá-las  do silêncio.

domingo, 21 de outubro de 1990

Da marginalidade e do escrever


            E’na Universidade de Poitiers, a 340 quilômetros de Paris, que se inscreve um dos mais prestigiosos centros de estudos sobre literatura latino-americana. Em 1981, continuação de um programa que já havia sido dedicado a Pablo Neruda, Juan Carlos Onetti, Augusto Roa Bastos, César Vallejo, Graciliano Ramos e Machado de Assis, foi realizado um Colóquio Internacional sobre a obra de Carlos Droguett.

            Extremamente importante pelo número e pelo nível dos trabalhos apresentados e pela documentação sobre o autor, presente ao evento, realizada em vídeo, representou, sobretudo, a partir de uma presença efetiva na Universidade francesa, um marco para a história literária do romancista chileno no que se refere ao que a Literatura Comparada chama “fortuna” de uma obra.

Na verdade, um acréscimo pois textos de Carlos Droguett há muitos anos, já haviam chegado na França. Seus primeiros contos que passaram despercebidos no Chile como, de certo modo e durante muito tempo, todos os seus romances, foram traduzidos por Francis de Miomandre que os considerava admiráveis e os publicou em revistas literárias francesas.

            Mais tarde, em  1977, foi a vez de Eloy, romance publicado na Espanha antes de sê-lo no Chile, ser traduzido para o francês e publicado pela Maspero. E, em 1983, pela Denoël, numa tradução verdadeiramente brilhante de Jean Marc Pelorson, apareceu Patas de perro. E, anunciada para breve, a tradução de El Compadre.

            Até certo ponto, seguindo os passos  dessa trajetória da obra de Carlos Droguett no circuito comercial francês e, logo o acompanhando, a crítica universitária se faz presente. Em 1980, Ana Maria Díaz-Moreno defendeu uma tese sobre Eloy e, agora, bem recentemente ( o trabalho não trás data), uma nova tese é defendida, desta vez sobre Patas de perro, romance considerado por muitos como a obra-prima de Carlos Droguett: Une étude de la marginalité dans Patas de perro, de Carlos Droguett. Seu autor, Jean Paul Audoin, se debruça sobre a marginalidade de Bobi, o personagem principal do romance, num mundo hostil em que prevalecem as normas e as leis. Procura mostrar como a marginalidade é ligada à sociedade da qual o marginal procura fugir e como essa sociedade está na origem do processo de marginalização e com as conseqüências que lhe são inerentes.             Antecedido por um estudo sobre a gênese da história, sobre a solidão que alimenta os dois personagens principais e sobre as buscas de Bobi, uma orientada para a religião, outra para a política, “Escrita e marginalidade” a quarta parta do trabalho se detém em dois aspectos que são de suma importância na obra de Carlos Droguett: o procurar transgredir as normas vigentes na construção do romance e o oferecer um universo romanesco fragmentado através de explosões de palavras que, aparentemente, podem parecer caóticas. Sobretudo, porque nem sempre, os tempos verbais se justapõem e as frases começam onde parecem estar terminando. Este contrariar da lógica, diz Jean Paul Audoin, permite reviver do interior do personagem este fluxo de paixões que nascem e desmaiam, que são gravadas e apagadas. Assim, as impressões  criadas são mais próximas de uma verdade emocional do que qualquer outra escrita em que os esquemas estejam previstos de antemão. Uma desordem que, de certa maneira, se inscreve na natureza e na sociedade: desordem de idéias e de sentimentos que, no entanto, frisa o estudioso francês, são o suporte dessa sociedade normalizada e intolerante. Razão de sobra para que nela existam os oprimidos, os marginalizados.

            E’por eles que o romancista chileno escreve. Em Patas de perro como o demonstrou Jean Paul Adouin, ele modelou a escrita à imagem do seu personagem: marginais ambos. Na sua concepção revolucionária do mundo – de um mundo que ele anseia diferente – a rigidez da escrita deve ser quebrada como devem ser quebrados os laços que aprisionam o homem. E, Jean Paul Adouin cita as palavras que, em 1981, Carlos Droguett pronunciou em Poitiers: ser marginal significa ser livre.