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domingo, 21 de maio de 1995

Para ser feliz


Nuanças foi publicado em 1981 quando seu autor, Dyonélio Machado, tinha 86 anos.É um romance romântico. Relato do amor entre Martimiano e Carmosina, ambos marginais. Ele, membro de um partido político ilegal, o que ela ignora; Carmosina, vivendo, por vezes, da prostituição o que ele tampouco sabe. Nas vésperas do casamento, o compromisso é rompido e cada um segue a sua vida. Um reencontro, porém, os une outra vez, para, então, serem felizes.

Lenta, transcorre a narrativa, interrompida por reflexões de Martimiano, por observações do narrador. Dão-lhe brilho, episódios que Antonio Hohlfeldt chama de lances folhetinescos e uma sutil densidade psicológica dos personagens femininos, as breves descrições do espaço urbano. Quadros que retratam a imobilidade de duas casas que se erguem, iguais, numa esquina da praça deserta na escuridão da noite.

As casas possuem portas para a via pública por serem destinadas ao comércio; um oitão que se transforma em fachada, a janela da mansarda na linha do prumo que desce da cumeeira, dando-lhe o porte desses grandes chalés das montanhas onde há neve. A praça se mostra primeiro a partir de sua forma: um trapézio originado do alinhamento das ruas longitudinais, buscando uma ponta sobre o rio, onde desabar. Depois, a sua localização entre as ruas que lhe dão acesso, esse aspecto de palco proveniente do declive da colina que, suavemente, se aproxima do rio.

Na verdade, das casas e da praça esse rápido esboço das formas é apenas motivo para levar Martimiano à reflexões (desejos de fuga) e a estratégias de autoproteção (evitar ser apanhado pela polícia). Assim, também é mostrada a paisagem que Martimiano tem diante dos olhos na viagem que o afasta de Porto Alegre. Grandes traços – ponta de terra metendo-se água adentro, revestida de mato, contornos de um edifício, o promontório, a massa do monte, último e belo contraforte duma sucessão de estruturas antigas – porém iluminados pela última luz cinzenta da madrugada, logo pelo sol nascente, onde todavia o claro se traduz por um vermelho flamejante.

A imagem da água, rios correndo para o mar trazem ao personagem a melancolia dos que fogem sem saber se, por ventura, um dia voltarão.

Martimiano volta. Carmesina, que as circunstâncias levaram à prostituição se regenera. Não havendo acusação formal contra ele, pode voltar a ser cidadão. Um lugar digno e respeitável pode ser dado à Carmosina a partir do casamento.

Dyonélio Machado, nas palavras que dirige à mulher instigante, virtual leitora, como um prévio aviso sobre a matéria do livro que antecede suas páginas, usa a palavra romantismo. Sem dúvida, romanticamente otimista esse final de romance aberto para a felicidade.

Como um pano de fundo a repressão, o arbítrio, a situação feminina, a delação.

Para Dyonélio Machado ainda não chegara a hora de depor as armas.

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