domingo, 28 de dezembro de 2003

O almoço 1

            Do mundo que ela quis fugir, lembra os cenários. Esse quarto da casa da avó onde, por vezes, dormia, móveis de pau marfim – guirlandas entalhadas na cabeceira da cama, pequenos laços, flores. Psichê com espelho de três faces, escrivaninha, cortinado de tule, caindo do teto. E as bandejas de prata, os compridos vasos com flores, os aparadores de estilo da casa da mãe, cujos desejos (fontes, pérgulas de mármore, empregado de jaqueta com botões dourados para abrir o portão, casamento da filha numa igreja decorada com lírios e camélias, quatro meninas da família, vestidas de rosa pálido, abrindo o cortejo que passaria entre senhoras de lornhão a elogiar a noiva, o bom gosto do vestido, a distinção da mãe, a estirpe dos padrinhos) não levavam em consideração a situação difícil do marido a pagar dívidas de outros por letras que endossara.


            Na mediocridade de sua vida – casar-se à revelia da família não lhe fora proveitoso –, procura mostrar à mãe quando, por uma vez, a visita no Rio de Janeiro, um ambiente agradável, padrão ideal de vida para as jovens bem nascidas [...].Também, faz um esforço para conviver, ainda que por pouco tempo, com a família ao ir a São Paulo para um enterro. Difícil lhe resulta escutar o que dizem os primos e o que diz desse convívio, mostra o lamentável e o ridículo dos que se acreditam superiores aos demais, não parecendo, porém, saber, exatamente, em que.

            Nesse relato que, então, faz,  mal se desenham as primas: Maria Elisa com sua beleza de governanta belga, Dinah tão gorda, quase irreconhecível. Distantes pelo tempo que passou e pelos rumos diferentes que seguiram, o passado em comum não é suficiente para um reencontro, marcado pela impossibilidade de comunicação. Tento conversar, ela diz  mas sinto a boca presa por nervos que a repuxam, silenciando-me. Cheia de significados, então, a descrição do almoço que reúne a família. Servido às duas horas da tarde de um domingo, na mesa, toalha de linho irlandês, bordada à mão, tendo, no centro, tulipas alaranjadas. E uma abundância na qual se mesclam a salada de maionese, enfeitada com tomates recheados, ovos cozidos, fatias de rosbife, torta de camarão, risoto, pernil com farofa, ameixa preta e abacaxi passados na chapa, vagem e cenoura e salada de pepino em pequena salva de cristal, virado de feijão com lingüiça calabresa. O parágrafo que se lhe segue, é uma espécie de título, A família está reunida, ironicamente anunciando os diálogos e o universo no qual eles se inscrevem. Rostos parecidos, tiques semelhantes. Já não há parentescos mencionados, tampouco nomes. Apenas breves frases, curtas seqüências que expõem as opiniões de uma classe que se quer de elite e denota viver no mais exíguo dos mundos: observações sobre comidas (Faz referência, com certa languidez, a pratos de outros domingos, Recorda-se um passado strogonoff, Eu faço essa torta com galinha, também fica gostosa), formaturas, necessidade de chuva, empregada doméstica. Estreiteza de um universo completado nas sequências seguintes,  que se alternam para esboçar, já agora, os mundos que se opõem. Um deles, presente nas palavras dos convivas, feitas de saudosismo (Eu tinha quem fizesse meus cachos, quem calçasse meus sapatos), fórmulas para emagrecer (Esses remédios descontrolam os nervos. O negócio é regime, passar fome:, Já ouvi falar nesse médico. Ele faz a gente emagrecer quatro quilos em poucas semanas), casa nova (Acho jardim de inverno indispensável), decoração de Natal em Nova Iorque (vai ser uma beleza), piada preconceituosa (em Nova Iorque decerto vão dar um negro para cada criança branca acender, na janela, ao romper do Ano Bom”), construção de uma capela no jardim do asilo, família (Filho é bom porque distrai, Eu ficando sem empregada, já disse: restaurante, meus filhos.), carro, cabeleireiro, comentários presumivelmente definitivos (Povos atrasados não podem ser livres). O outro mudo, presente nas constatações da narradora a historiar um fato lamentável (morre um rapaz por falta de assistência médica e a mãe ao se desesperar e agredir o poder público é presa e, ao ser  solta, já não mais é dona de seu juízo perfeito) e de referências a cifras vergonhosas (80% das habitações em Belém são servidas por água de poço; em Fortaleza, 71%; em São Paulo, 50%), de constatações (somente as famílias que recebem mais de 4 salários mínimos conseguem equilibrar seus orçamentos. Um equilíbrio que desmorona a cada sarampo, a cada Dia das Mães).

            Entremeando-se a esses lugares comuns, enunciados pelos convivas ao redor da mesa e as informações da narradora sobre uma realidade que não convém mencionar, a enumeração de sobremesas que, também, delimitam cenário e figurantes: pavê de chocolate, pudim de laranja, baba de anjo, doce de leite.

             Estabelecida a narrativa num jogo do tempo (ora presente, ora passado) e dos diálogos (múltiplas vozes de indeterminados interlocutores) e conduzida pelo testemunho de uma narradora que se move entre a lucidez, o espanto e a inércia, Julieta de Godoy Ladeira cria em Entre Lôbo e cão (José Olympio, 1971), não apenas uma elaborado mundo ficcional, mas uma contundente crônica da mentalidade de sua época. E com a maestria que justifica ter sido considerada por Dyonélio Machado em entrevista concedida a Miguel de Almeida (Folha de São Paulo de 8 de novembro de 1981), a mais completa entre as romancistas atuais no Brasil.

domingo, 21 de dezembro de 2003

Charla de Natal

 

    O título do poema anuncia uma conversa, mas, na verdade, as palavras pertencem, apenas, ao emissor da mensagem. Cinco estrofes, quartetos de rimas perfeitas, inscritas num universo gauchesco de fronteira para se aproximar, a seu modo, de um tema universal: o nascimento de Cristo. No primeiro verso, o possessivo meu (meu Cristo) indica uma relação afetiva que se amplia no emprego de um inusual diminutivo, igualmente precedido do possessivo de primeira pessoa (meu Jesus-Cristinho). E permite esse ir chegando (que a expressão se não levar a mal, advoga), após longa jornada (que o adjetivo basteriado, classificando o cavalo, denuncia) e desmontar (implícito no verbo desencilho ), dando por assente a permissão para um ato já consumado.

            O segundo quarteto, repete a expressão afetiva, antecedendo-a, não mais, do cumprimento Buenas (simplificação do espanhol platino para “buenas tardes”, “buenas noches”), mas de um agradecimento, gracias (igualmente um termo espanhol, “obrigado”) pela acolhida na estrebaria. Palavra que remete a um espaço e a um momento determinado, o nascimento de Cristo, já anunciado na menção da palavra Estrela, grafada com letra maiúscula para reafirmar a sua condição de única, de guia e antecedida, também, (como estrebaria) do pronome de terceira pessoa a revelar um possuidor (da Estrela e da estrebaria) inegável que irá justificar o diminutivo Jesus-Cristinho, pois é ao Cristo recém nascido que as palavras se dirigem. Nas três estrofes que seguem, subjacentes, as figuras dos Reis Magos quando explica porque não oferta incenso, nem ouro, só a mirra. Nega-se a louvar o menino (Não vim, Jesús-Cristinho pra incensá-lo),  amparando-se na sua rústica e convicta altivez e se iguala ao cambará de cerno duro (nas três palavras, a expressão de resistência, de invencibilidade) e nas suas convicções e nas suas crenças: acredita no maléfico da vida e endeusa as mulheres e o cavalo. Se não lhe dá ouro é porque nada possui, chega de mãos vazias e só tem de seu, pessuelos magros, uma lasca de charque, avios de mate para suprir as necessidades e uma garrafa de cachaça como remédio, caso seja preciso, para o mal de amor. A mirra, sim, lhe traz. Feita de sua humanidade – pecados ou sina – que se ilumina no sofrimento de saber, de adivinhar a terrível morte que ao menino está adjudicada para saldar culpas alheias. Parte das quais – entendendo-se por homem marcado pelo pecado – ele assume ao compreender que essa morte será, também, por seus diabos, seus pecados.

            Remetendo à verdade bíblica, ainda que limitado no possessivo de primeira pessoa, meus diabos, o último verso sensibiliza pela imensidade do drama (a morte de um inocente) que não deixa de ser lamentado pelos cristãos. Porém, o que, no poema, se faz profundamente tocante é a ingênua, espontânea, solidariedade expressa no segundo quarteto, posso ajudá-lo, já que está sozinho, relacionada com o verso anterior, embora apeie com estas mãos vazias a significar que ninguém é tão pobre que nada possa oferecer. Seja, apenas, esse préstimo para minorar a solidão, sentimento inerente à condição dos homens e do qual Jesús Cristo, deus feito homem, e homem pobre, não foi poupado.

            Por esse inesperado trato do tema religioso, pelo inspirado das determinações de tempo e espaço e pela qualidade do ritmo, “Charla de Natal”, de Apparicio Silva Rillo, publicado em 19 de dezembro de 1981 no “Letras e Livros”, do Correio do Povo de Porto Alegre, se constitui , neste enraizar-se no linguajar campeiro do Rio Grande do Sul e neste perfil do gaúcho feito de altivez desmesurada, de crenças e descrenças e de um parco possuir, como tantas vezes, um momento privilegiado da sua produção poética.

 

 

Basteriado: o animal que sofreu escoriações causadas pelo atrito do lombilho com a pele .No poema, usado na forma próxima do espanhol, bastereado e não da forma portuguesa basteirado, da qual é uma variante. Boteja: ainda que a palavra conste como botelha no Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda, com o significado de garrafa e tendo como origem, a palavra francesa bouteille, conforme consta no poema é a grafia de botella, termo espanhol que os platinos pronunciam com o som de jota português. Está registrado no Vocabulário de Regionalismo do Rio Grande do Sul, de Zeno e Rui Cardoso Nunes e não no Vocabulário Sul Riograndense, editado pela Globo de Porto Alegre o que indica um uso menos frequente ou mais recente.


Canha: grafado com nh e com o significado de cachaça, está registrado no Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda como oriundo do espanhol platino e como regionalismo do Rio Grande do Sul.


Charla: que no Aurélio consta como oriundo do italiano, significando tagarelice, é registrado pelos irmãos Cardoso Nunes como conversa, conforme é o uso dos platinos.

China: nos três dicionários já referidos, aparece com várias conotações, entre elas, a de mulher descendente de índios, mulher morena e mulher de vida fácil. No poema é usado, na acepção (além dessas referidas) que lhe conferem os platinos: mulher, no sentido carinhoso; mulher amada. (Diccionario del lenguaje campesino rioplatense, de Juan Carlos Guarnieri e Diccionario de Voces y expresiones argentinas, de Felix Coluccio).

 

domingo, 14 de dezembro de 2003

Mantônia

            Mantônia. Maria Antonia de Oliveira. Porque era assim que as crianças a chamavam. As crianças que ela criou e que não mais existem, cresceram, se transformando em adultos. Mantônia, minha pajem há quantos anos atrás?, se pergunta a narradora do romance de Julieta Godoy de Ladeira, Entre lobo e cão (Rio de Janeiro, José Olympio, 1971), entre outras perguntas, a buscar verdades. Cortou as amarras, deixando a família, e sua paisagem para viver longe e de maneira diversa. O que não a fez alcançar a maturidade e sim a deixou à mercê da tristeza, da solidão, da nostalgia do passado. Na mediocridade de seus dias sem rumo, se insinuam as lembranças e a menina, a adolescente, a recém-casada emergem do relato que avança e retrocede numa hábil combinação do que já passou com o que está a se passar. Entre as figuras que povoam o seu passado, Mantônia. Ela era o prato de comida, o doce, o sono e a espera, era o quarto, o jardim a casa, a infância.


            Presença que lhe aparece em breves imagens fugidias: Mantônia, chamando as crianças na hora do jantar, indo para a fila do pão ou do açúcar, decretando que a água fria fazia mal, banana com leite também. Mantônia, oferecendo os pastéis vendidos pelo italiano que as mães negavam; a imitar, paciente, o lobo, com o xale da avó, repetindo, sempre, a mesma história porque, outra, as crianças não queriam; atravessando, da porta ao altar, de joelhos, a igreja de Pirapora, a segurar uma vela da altura da narradora nos seus onze anos, para que ficasse curada do ouvido; dando-lhe, escondida atrás da porta de serviço, com a sua mão escura, um dinheiro de presente de casamento (É só uma lembrança, não repare. Que Nossa Senhora e o Sagrado Coração protejam você).  Ou na expressão de profundo, insubstituível, afeto enraizado nas emoções primeiras: depois dos braços roliços de Mantônia, nos primeiros anos, conheci poucos aconchegos, Mantônia e seu cheiro de leite. Mantônia, lugar de repouso, companhia certa quando, através da vidraça, esperava a mãe chegar. No presente, o desejo de se subtrair ao sofrimento de a encontrar diferente, magra, fraca, pisando mal, a voz dificultada pela boca torta de quem sofreu um derrame, sem o controle das mãos a segurar, com gestos estranhos, a xícara. A xícara que é prato para a sopa, terrina para o café, caneca para o leite. E, se mostra incapaz de esquecer essas palavras de Mantônia que expressam não apenas uma visão de mundo, mas a aceitação de um destino. Eu servi, diz Mantônia ao mencionar as crianças de que cuidou. Eu servi, responde quando lhe é perguntado o que fez durante a vida inteira. E sem o saber, inserindo-se no universo daqueles que da vida somente recebem deveres e trabalhos – alijados dos mínimos direitos, inclusive daquele de poder dispor de si mesmo – diante de outra pergunta, A senhora gostaria de ter feito alguma outra coisa além de apenas servir, laconicamente responde: Eu nunca pude escolher. E de outra feita: Nunca me ensinaram, nunca me disseram. No entanto, pensava em coisas bem simples, jogando no bicho, acreditando que um dia pegaria uma centena para ter um canto seu. Pequeno, onde coubessem uma cama e o oratório e, nos fundos, tivesse um pouco de terra para plantar couve, regar depois do sol, olhar de manhã cedo. Sempre esperando pela sorte grande, embora jamais comprasse um bilhete. Porque nunca teve dinheiro e nunca pode comprar o que era novo. Só uma vez, um casaco escuro, a prestação e que durou anos. Ganhava menos do que as outras empregadas, pois Era como se fosse da família, ajudara a cuidar das meninas. Se não quisessem ajudá-la, depois de velha e doente, ficaria na rua, como acontece a tantas que passaram a vida servindo.
            Velha, doente, fraca, respirando com esforço – arteriosclerose, reumatismo, pressão alta – fica sentada perto do armário da cozinha. Chora ao ganhar um presente, receber uma gentileza.
            No hospital, inconsciente por ter se excedido nos calmantes, a narradora ainda pergunta: Mantônia. Você está aí?.

domingo, 7 de dezembro de 2003

O morro

            Amélia mora no morro e desce para trabalhar em Copacabana. A patroa gosta de seu jeito, escuta as suas histórias e, assim, vai lhe conhecendo as vizinhas e a luta sem vitórias do cotidiano da pobreza no seu cenário degradado. Nele, e nos seus habitantes, se detém, por vezes, Entre lobo e cão, romance de Julieta de Godoy Ladeira, publicado, em 1971, pela José Olympio do Rio de Janeiro
   
         Uma voz feminina é dona do relato. O laço afetivo que irá estabelecendo com a nova empregada e a solidão em que vive a levam a visitá-la no dia do aniversário. Sobe o morro e se depara com o que já conhecia pelas palavras de Amélia: a rua sem calçamento, a venda, o portão de madeira, as plantas. Antes, o trajeto que, aos poucos, vai anunciando outra história urbana: as primeiras casas depois dos prédios, placas anunciando quartos para alugar, samambaias plantadas em latas, cimento batido, mato invadindo canteiros. E a subida das escadas, permitindo, então, ver o mar. Também, sentir o cheiro da favela e outro cenário feito da encosta violenta coberta de mato, sulcos arenosos, marcas de pé. Cantares errantes. Galinhas ciscando, gatos se distendendo, o porco fuçando o lixo, uma criatura desgrenhada empurrando a janela, outra escolhendo, num alguidar, restos de verdura, frutas de mau aspecto. Na casa de Amélia, a ingenuidade dos objetos, a boneca, vestida de tafetá, embrulhada em celofane por causa das moscas. Branca, cabelos louros as palmas bentas, a imagem de São Jorge, o rádio de cabeceira, a colcha de rendas forrada de seda salmão, tapete de retalhos. Nas vizinhas, a mesma submissão diante da vida. A mulher, cujo marido é bêbado e quebra as coisas; a outra, que sai para trabalhar e deixa as crianças trancadas em casa; a que se mata de lavar roupa para fora e, ainda, apanha do marido; ou a que é lavadeira e à noite, lhe roubam a roupa que estendeu para secar; a que deseja constituir família e bebe e fica triste e, finalmente, se suicida por estar cansada de viver; a que decide dar o filho antes de nascer porque não tem condições de criar. Evidente o descompasso dessas vidas – e da vida do homem que foi preso em 45 e desde então não arranja emprego, do que foi torturado pela polícia sem nunca ter se filiado a nenhum partido, do que não trabalha, do que se embebeda – com aquela que deveriam ter o direito de viver. Porém, só lhes resta aceitar viver em barracos, no morro, onde fazer bom tempo é importante, pois, se chove, a enxurrada cobre de terra as escadas, as pedras desmoronam e falta água e falta luz.

Ao entardecer, quase noite, depois do bolo e dos biscoitos, das balas enroladas em papel de seda, a descida, deixando para trás o rego de água, as plantas do quintal, o puxado da cozinha, os homens sem sapatos, sem camisa, a fazer a barba na frente de um espelho. O cheiro da favela, onda quente, como se exalada de um grande cadáver exposto que fica na roupa, nas mãos, na garganta, deixando a impressão de que nunca sairá, nenhum sabão o poderá tirar. Em Copacabana, a agitação de sempre com seus cinemas e seus bares, contraste com a realidade feita de sofrimentos – as inadaptações, as surpresas, as impossibilidades, o pasmo – que se repetem, sempre, para a gente que sobe o morro, no fim do dia, com seus desejos sempre mais distantes.

            Prisioneira dos liames com os quais se enredou para fugir daqueles que a tolhiam, alheia ao mundo dos seus e incapaz de se inserir no mundo dos outros, a narradora de Entre lobo e cão, atônita e rebelde, permanece entre dois mundos. Mas, sem inocência.

domingo, 30 de novembro de 2003

Amélia

            Três são as palavras, cada uma com a sua letra inicial maiúscula e com vida própria na qual não interfere a pontuação: enigmáticos títulos dos vinte e dois capítulos desse primeiro romance de Julieta de Godoy Ladeira, Entre lobo e cão (José Olympio, 1971) e que a revela uma escritora de imenso talento. Inicia-se com um episódio muito chão: a escolha de uma empregada doméstica entre as candidatas que foram se apresentando ao anúncio publicado. Nele, informando das condições de trabalho – apartamento pequeno, casal sem filhos – já se delineia algo da personagem que, no segundo parágrafo irá assumir o relato. Um relato denso em que as vozes se alternam, se entremeiam os tempos narrativos, mostrando, sem retoques, um universo feminino e o mundo pleno de contradições, espaço de uma trajetória desorientada, permeável a todas as agressões. Breves gestos, triviais cenas do cotidiano, enumeração de objetos, efêmeras imagens que a cidade oferece, escassas palavras, silêncios, lembranças e um testemunho lúcido sobre a sociedade com seus valores, na qual, ainda que à revelia, a dona da narrativa precisa viver.
 

            Entre os muitos personagens excepcionalmente construídos, destaca-se Amélia, cuja presença irá se instalar aos poucos. Primeiro, a sua voz arrastada, falando com cerimônia, seu olhar manso. Logo, a menção aos afazeres – fará o almoço, arrumará o apartamento e ao seu olhar conhecedor para a cozinha a perceber que a geladeira está nova, que os armários são espaçosos e forrados com papel alegre que as folhas das plantas estão tristes e amarelas. E, às opiniões que emite: o mar enferruja as coisas, é necessário cobrir a geladeira, as plantas foram vendidas sem raiz. E à promessa de trazer umas espadas-de-são Jorge e uns tinhorões que se desenvolvem dentro d’água. Páginas adiante, outros de seus traços (Pequena, mulata escura, rosto liso, olhos grandes muito abertos para as árvores da calçada, as folhas que caem, o cachorro doente no canto da rua [...]) e seu modo de vestir (saia lisa de seda pesada, blusa com enfeite e sem decote, bem lavada e com tanto uso que a cor mais viva está, apenas, perto das costuras) e de calçar (sapatos fechados, sem salto). E, entremeados à recordações da narradora, às suas dúvidas e inquietações dizendo de seu jeito humilde, de sua expressão doce e conformada, de seu sorriso e de sua voz mansa, o retrato vai se completando. Ao fazer o almoço, olha com ternura as folhas tenras do espinafre e se interessa em saber como a patroa prefere. Ao limpar a casa, o faz com cuidado: Quer bem os objetos como se fossem plantas, animais. Quando serve o chá, bem quente e com limão, se encosta no batente da porta e tirando um dos pés do sapato, vai encadeando as histórias. E se permite recriminar a patroa por não ter cuidado e abrir a geladeira com o corpo quente, por tomar café antes do banho, ou aconselhar que reforce as fechaduras, que não atenda qualquer um, seja um pedinte, seja uma oferta de tinturaria. Em sua serenidade, há desconfiança, susto, pressentimentos. Mas, ao falar das patroas para as quais já trabalhou, lhes elogia a bondade. E ao se referir ao homem com quem vive, o faz compreensivamente. Porque Amélia é o exemplo perfeito da Amélia que era mulher de verdade. Do Joaquim que trabalha como porteiro da noite de um edifício e lava os automóveis, sente pena e de manhã, antes de sair – O coitado chega morto de sono, vive se queixando – deixa o quarto arrumado e a comida pronta. Na convivência do cotidiano, vai revelando dessa relação feita só de perdas, continuação da outra, o ter emigrado para o Rio de Janeiro aos quinze anos, com a madrinha, sofrimento do qual não está livre, pois alimenta o desejo do retorno. Quando moça e usava tranças ao redor da cabeça, o corpo bem feito, e trabalhava no Leblon, Joaquim passava e assobiava. Ela acenava. Depois foram os presentes: biscoitos, corte de fazenda, pulseirinha de contas. Um cachorro. Também, um novo nome, Maria, que ela aceitou, dizendo não se importar: Mania, o que é que se vai fazer? E, assim, Maria, anônima, a compartilhar esse destino de mulher anônima, sem valor, conformada em aceitar uma vida a dois da qual os possíveis benefícios são devidos somente a um. No quarto alugado, no morro, Joaquim apenas dá o dinheiro para o arroz, o feijão, o bacalhau. Uma sobremesa, uma fruta – a gente então não gosta dessas coisas? – é Amélia quem compra. Quando ele juntou dinheiro foi para Portugal. Quis levar enxoval de luxo e presentes. Amélia mandou fazer-lhe um terno, bordou colchas com rendas ligando os quadrados de linho e ficou pagando o quarto. Só depois de um ano ele voltou, magro, estropiado, sem um presente e, ainda, trazendo um filho já homem, pois era casado em Portugal. Amélia, até que eles achassem trabalho, dava de comer aos dois, mesmo recebendo o desprezo do rapaz que a chamava de negra e exigia azeitonas e manteiga, cigarro, cerveja, graxa para os sapatos. Como cuidou do Joaquim doente, sempre carregada de frutas e doces que levava ao hospital, embora nada dele tenha recebido: Homem é assim mesmo a gente tem que passar por cima dessas coisas. Quando, por sua vez, foi operada e sem poder trabalhar, gastou todas as economias, dele não recebeu ajuda, uma visita, somente a pecha de estar na vadiagem.

            A narradora vai se deixando envolver pelas histórias que escuta, pelos percalços que dificultam a vida de Amélia, tenta ajudar. E seus olhos descobrem o morro e outras vidas que parecem somente ter o direito de serem maltratadas. Mas, suas poucas e mornas tentativas fracassam e, na verdade, nada pode fazer. Somente lhe resta a lucidez para constatar realidades que extrapolam o simples drama pessoal que é, apenas, conseqüência de outro maior: a ausência de cidadania. Algo que é possível perceber e que, no entanto, tem, estranhamente, permanecido distante do mundo ficcional brasileiro.

domingo, 23 de novembro de 2003

As árvores


Por vezes exalam perfumes, se vestem de cores. Ou, apenas, se justificam pelos pássaros que pousam em seus ramos. Em O Fiel e a pedra, mais do que se inscrever na paisagem, as árvores têm o significado que Bernardo e Teresa lhes conferem. Bernardo, passada a surpresa que os tiros de tocaia lhe causaram, caminha devagar e chega perto dos cajueiros que, floridos, liberavam um cheiro de resina de castanhas, levando à lembrança de sua mãe a tirar a casca dos cajus, pô-los num alguidar e depois, a secar ao sol. Teresa, ao chegar na casa, forte construção branca, de telhado quase negro, onde ela e o marido iriam morar, iniciando uma vida nova, viu as duas mangueiras raquíticas, já velhas, de poucas folhas e que pareciam jamais haver florido. No quintal, apenas uma groselheira e, mais distante, um grande laranjal. No topo da colina, podendo serem vistos da cozinha, os eucaliptos. Eram treze, ainda novos. Para Teresa, que logo os vira, significavam uma compensação: Oscilavam sob os ventos do entardecer. As sombras de alguns, desciam sobre o laranjal, animavam o quintal abandonado, faziam estremecer as paredes da cozinha. Os reflexos de ouro e violeta do sol davam às suas folhas, àquela hora, uma aparência de plumagem. Seus troncos macios brilhavam como de porcelana. Teresa, dentro do coração, teve o sentimento que nos meses que viriam, iria ter, nessas árvores que se pareciam com ela no talhe, companheiras fiéis. Elas iriam crescer e ela poderia saber, pela altura das folhas, o tempo de sua reclusão. Pois aquela não era sua casa e ali cumpriria, junto com Bernardo, apenas um tempo. O destinado a obterem meios para viver, alhures, melhor. Daí esse consolo na visão das árvores que encontra Teresa, um traço a completar-lhe o perfil de mulher que se adapta aos percalços da vida. 

            No mesmo ano em que recebia as provas de O Fiel e a pedra para corrigir, Osman Lins vivia a sua experiência na Europa. Seis meses em que, partindo, sempre, de Paris, onde foi bolsista da Aliança Francesa, viajou pela Itália, Espanha, Suíça, Bélgica, Holanda. Do que viu, deixou testemunho: Marinheiro de primeira viagem. Nele, breves cenas de rua, gente com as quais cruzou, rápidas descrições da paisagem no que ela tem de cambiante, de transitório. Assim, as árvores. Embora note, por vezes, somente a sua presença (poucas árvores numa paisagem do interior da França; uma fila de árvores cuja espécie desconhece, levando à pergunta que árvores são essas?) ou as reconhece (macieiras brancas, castanheiros, laranjeiras plantadas em tinas enormes; o salgueiro chorão a se inclinar romanticamente sobre as águas, ostentando seu verde claro e rutilante, como das esmeraldas) é, sobretudo, nas mudanças que sofrem com as estações que ele irá se fixar. Porque, ao chegar na Europa, em pleno inverno, encontrou essa realidade desconhecida para muitos habitantes dos trópicos: as árvores sem folhas. Que meses depois, veria reverdecerem, brilhando em pequenas folhas verdes, revestindo-se de uma penugem de verde ou de vermelho[...]. Causando-lhe a surpresa de descobrir, inesperadamente, essa renovação: Já não eram as árvores desnudas de janeiro ou de dois dias antes, ou da véspera. Envolvia-se uma espécie de nuvem rósea, os brotos estouravam, contavam-se aos milhares os pontos cor de vinho. Um coro vegetal, todas as árvores cantando, naquela tarde, a canção do fim de inverno. Julga compreender que, no mundo das incertezas, a primavera jamais falta ao encontro prometido, razão das festas com que, desde sempre, foi recebida pelos homens. Mas, principalmente, se trata, para Osman Lins de uma transformação que lhe aponta a passagem desse tempo que se escoou. No seu último passeio pelo parque de Luxemburgo, antes de voltar ao Brasil, ele constata: Deixava todas verdes aquelas árvores que, seis meses atrás, encontrara desnudas.

            Depois, em Portugal, já quase embarcando irá, ainda, registrar o transitório: das frutas, das flores e dos tons avermelhados nas vinhas, anunciando o outono.

 

domingo, 16 de novembro de 2003

Outra paisagem

            Havia terminado de escrever O fiel e a pedra e embarca para a Europa, como bolsista da Aliança Francesa, para uma permanência de seis meses que, mais tarde, afirmaria ter lhe sido marcante e, então, o assunto de Marinheiro de primeira viagem. Um livro que Osman Lins escreveu para se libertar das lembranças, fazer com que aquela pausa e seu encantamento passassem a fazer parte do passado. Nele evitou as descrições que podem ser encontradas em guias turísticos ou em enciclopédias e buscou fixar o transitório. Como disse numa entrevista, em 1963, quando o livro foi publicado: Do que não virá a repetir-se. E isto, o único, pode se constituir dos encontros que teve com Michel Butor, Robbe-Grillet, Jean Louis Barrault ou dos espetáculos de Edith Piaf, Juliette Greco, Edwige Feuillère, Léo Ferre que assistiu, de uma ou outra peripécia (dessas que soem acontecer aos turistas), das gravuras de Goya, dos quadros de Rousseau, do teatro de guignol, no Jardim de Luxemburgo, das estátuas de Rodin. E das notas sobre a paisagem.

            Na verdade, elas não são muitas. E, sempre, muito breves, apontando para o movimento, as cores e, por vezes, se entrelaçando às impressões do narrador. Este narrador que, no intuito de se poupar da intromissão do eu, diante de seus próprios olhos – assim o explica na mencionada entrevista a Esdras do Nascimento para A Tribuna do Rio de Janeiro – faz a narrativa na terceira pessoa. Mas, assim como a primeira pessoa do singular se permite, ainda que raramente, irromper no relato (acontece quando conta de suas andanças em busca do túmulo de Públio Virgílio Varo ou no texto em que sugere um certo restaurante de Amsterdam ou quando o narrador se torna presente ao empregar uma segunda pessoa plural, exigindo um interlocutor e, ainda, na seqüência em que o narrador concede voz à primeira pessoa), assim transparece, por momentos, embora disfarçada no outro, a presença desse eu que Osman Lins, por pudor (é a palavra que emprega) quer esconder.

            Em Capri, o vinho que bebe verte no seu coração, em grandes ondas, uma alegria que se derrama sobre a menina de tranças, os mastros dos navios, a fachada frutal da mercearia, a praia de pedrinhas, o reflexo do sol na proa dos veleiros, os peixes escondidos, as lâminas de sol no mar azul. E, espiam-no as casas de Sorrento, amontoadas umas sobre as outras, silenciosas, com as suas grandes arcadas senhoris. Fiel a sua determinação de fixar o passageiro, apenas uma expressão, uma curta frase lhe são suficientes para compor a imagem que deseja registrar. Ao viajar pela Holanda, as imagens se sucedem, muito rápidas e rápidas são as notas que originam: Roosendaal. Cortinas. Campos verdes, cisnes deslizando num lago, bois sob as macieiras. O primeiro moinho, rodeado de árvores como se lhes contasse uma história. Rotterdam, casas populares, panos coloridos nas janelas, secando ao sol, chaminés, guindastes, milhares de antenas de TV. Novamente o campo, outros moinhos. Delft, plantações em estufas, terraços com solenes frisos de cortinas, parecendo pálios. Haia, flores na estação, adeus, novas pastagens, Leiden, campos de tulipas amarelas, róseas, cor de laranja, canais, canais, Amsterdam. São impressões que se fixam no que não mais irá se repetir: cores, formas, detalhes, uma presença humana.

             Numa parede branca, os cachos de laranja cor de ouro; na paisagem, os campos verdes, as verdes planícies, um rio, os trigais, os girassóis, as flores cor de abóbora. Também, as cidades pardas sob a chuva, agudos campanários, casas de tijolo vermelho, telhados de ardósia, janelas brancas, vidraças esplendentes, cortinas rendadas. O mover-se de uma péniche, de alguém a vender rosas ou que, de mãos nos bolsos, olha o trem passar.

            Uma simplicidade no dizer que, vez ou outra, permite uma comparação: laranjas que pendem de pregos como de um altar pagão; por toda parte, em Volendam, gente de pincel na mão, pintando as esquadrias das casas. Como se o país fosse um navio. Ou, inesperadas combinações; gaivotas voando sobre um rebanho de ovelhas, vacas e bois deitados entre as tulipas, um cemitério no meio de uma plantação, vacas entre flores amarelas.

            Uma austeridade a cercear, sempre, as expansões da alma. Se expressas, deixam ver as sutilezas de um olhar para o mundo que percebe, como poucos, as nuanças do cenário que tem diante de si e o faz compreender, certa tarde, em Paris, que uma perspectiva, bela ao pôr do sol pode não o ser ao meio-dia, assim como as árvores desnudas pelo inverno podem revelar, em toda a sua elegância, um edifício em outras estações oculto pelo espessor da folhagem. E, também, que as mudanças, tão perfeitamente discerníveis – árvores nuas do inverno, árvores que reverdecem na primavera – anunciam o irreversível fluir do tempo. E o fluir do tempo nunca deixa de lhe estar presente – a alegria de pensar que, se quiser, poderá reter um pouco da manhã: estes barcos no rio, este casal sentado no café, o pombo que voou e foi pousar, suavemente, na torre de Saint Germain de Près – e, então, estar presente nos escritos que refazem seus dias na Europa. Que ele encerra num círculo ao fundir as primeiras impressões da viagem com as últimas para dar a impressão, ele explica, de que se trata de uma fase não inscrita no seguimento normal de sua vida.

            Fase que, passada, deixará lugar à vida por viver. Vida que o irá esperar do outro lado do Atlântico quando ele deixa para trás Paris, todas as suas lembranças para embarcar, assoviando, no avião que o leva de volta para casa.