domingo, 19 de outubro de 1997

Os verbos da Conquista: o sentir


Em 1973, a Noguer de Barcelona, publicou El hombre que trasladaba las ciudades, um romance construído a partir das Crônicas da Conquista da América. Carlos Droguett, sem se afastar da verdade histórica contida nesse relato oficial, o refaz, dando-lhe vida e criando uma das mais belas e perfeitas obras da Literatura Hispano americana. Uma expressão rara, como que feita somente de achados, um sapientíssimo uso dos recursos romanescos fazem dessa obra um impressionante itinerário onde predominam linhas sinuosas e repetitivas cujo avançar e recuar permite vislumbrar o universo desconhecido que os espanhóis cheios de sonhos e, perdendo-se no tempo, quiseram conquistar.

 

  A cidade de Barco foi fundada por Juan Nuñez de Prado, diz a Crônica da Conquista. Recebera essa incumbência do Vice-Rei do Peru e, com duzentos homens, se lançara à aventura pelas terras do Continente. Ameaçado pelos espanhóis do Chile, quer salvar a cidade, mudando-a de lugar. Na primeira mudança deixa a forca e os enforcados, demonstrando ser sua vontade, exercida em  nome do Rei da Espanha e de Deus, da Lei. No segundo capítulo da obra, a mudança é um recomeço onde alguns verbos se constituem a expressão de um universo interior que, estreitamente, se entrelaça com as agruras do cotidiano da Conquista.

 
          No breve texto que antecede o “Primer  traslado”, capítulo que inicia El hombre que trasladaba las ciudades, Carlos Droguett diz da primeira medida que irá tomar: descrever seu personagem. Não falando de sua estatura ou de sua idade, mas de seus estados de alma, de suas dúvidas, desfalecimentos, brios, vinganças, desejos, realizações.
          E, assim, embora, por vezes, no relato se insinue alguma informação sobre o seu físico – sua cabeça era loira e pálida, sua silhueta se via envelhecida, estava magro e sujo e seus olhos fundos brilhavam com arrogância e febre – Juan Nuñez de Prado se apresentará, sempre, como que feito somente de seu sentir.
          Em meio a esse movimento que o conduz, levando a cidade, em meio da sua construção e de seus escombros, a alegria ou a tristeza o irão definir: alegre e seguro, desprendido e leve, com uma felicidade distante e vasta. Mas, quase sempre, triste e desconsolado, cheio de desassossegos, mergulhado na melancolia, desamparo, fraqueza, dúvida, desconfiança, angústia. Uma angústia que se lhe cola nas pálpebras e nos lábios, que lhe dá desejos de chamar alguém, que o fará quase desmaiar.
          Mas, o desejo de pedir auxílio resulta em silêncios e ele vive na realidade de sua solidão: Frequentemente me sinto sozinho e acurralado, então pego as armas e saio a procurar um vice-rei que me autorize a formar expedição ou pego as ferramentas e me perco nos vales e nos desertos a esmagar uma cidade nas rochas e despovoados.
          E, sozinho, deixa as gotas de chuva molhar-lhe o rosto e tirita de frio e sente sede e cansaço e adoece no sofrimento que se repete como esse fazer e desfazer da cidade e, sozinho, permanece cheio de convicções que o fazem ignorar as dores alheias.
          Se, por vezes, confessa malogros (estou tão doente e tão cansado e tão receoso e tão arrependido), logo os repudia (não, não estou arrependido) para reafirmar o amor pela cidade que justifica, então, cada uma de suas ações: o levar da cidade para mais longe, para afastá-la da estrada de bandidos e traidores. Mesmo que para isso tenha de matar (e imagina o campo de batalha cheio de soldados mortos e ele caminhando sobre eles...), mesmo que para isso tenha de enforcar os desobedientes ou assassinar quem se lhe atravesse no caminho. Intui que nasceu para essa triste e misteriosa sina que o enche de satisfação e desespero.
          Imaginando o futuro, vê a praça da cidade com seus chafarizes, crianças correndo, sinos tocando, mulheres se mostrando nas sacadas, velhas murmurando nos portais, carruagens percorrendo as ruas. E, vendo-se já grisalho e feliz, esquece as mortes e a desolação que espalha ao seu redor, o que sente nos momentos de dúvida e de certezas, as ordens do Rei, os preceitos de Deus.
          Mas, como um relâmpago a iluminá-lo, o sonho se esvai e Juan Nuñez de Prado, outra vez, se submete à realidade da Conquista e se submerge no seu sentir.
          Um sentir que a Crônica Oficial nunca houve por bem registrar e que, assim, sempre ficou à sombra, ignorado. Como se humanos não fossem esses homens que vieram para fazer a Conquista do Continente mas, apenas, instrumento, da vontade poderosa de um rei.

domingo, 12 de outubro de 1997

Os verbos da Conquista: o lembrar


Em 1973, a Noguer de Barcelona, publicou El hombre que trasladaba las ciudades, um romance construído a partir das Crônicas da Conquista da América. Carlos Droguett, sem se afastar da verdade histórica contida nesse relato oficial, o refaz, dando-lhe vida e criando uma das mais belas e perfeitas obras da Literatura Hispano-americana. Uma expressão rara, como que feita somente de achados, um sapientíssimo uso dos recursos romanescos fazem dessa obra um impressionante itinerário onde predominam linhas sinuosas e repetitivas cujo avançar e recuar permite vislumbrar o universo desconhecido que os espanhóis cheios de sonhos e, perdendo-se no tempo, quiseram conquistar.
 

  A cidade de Barco foi fundada por Juan Nuñez de Prado, diz a Crônica da Conquista. Recebera essa incumbência do Vice-Rei do Peru e, com duzentos homens, se lançara à aventura pelas terras do Continente. Ameaçado pelos espanhóis do Chile, quer salvar a cidade, mudando-a de lugar. Na primeira mudança deixa a forca e os enforcados, demonstrando ser sua vontade, exercida em nome do Rei da Espanha e de Deus, a Lei. No segundo capítulo da obra, a mudança é um recomeço onde alguns verbos se constituem a expressão de um universo interior que, estreitamente, se entrelaça com as agruras do cotidiano da Conquista.

 

... se não compreendem a necessidade de abandonar o lar que se deseja, os móveis que viveram conosco, a roupa que amassamos no nosso desespero e nossa solidão, se não sabem abandonar virilmente uns vasos de flores, uma dúzia de frutas perfumadas, como entender, senhor, que essa tropa de ladrões e assassinos tenha embarcado na Espanha para vir conquistar a terra? É a pergunta que, indignado, o capitão Guevara faz a Juan Nuñez de Prado ao não entender porque muitos soldados se negam a partir para o novo assentamento da cidade; não entende que desejem se fixar e possuir a terra e que para isso, talvez, tenham saído da Espanha.

Atravessaram o oceano, saindo de Cádiz e Palos e Barcelona e Santander e Vigo, para se embrenhar em terras desconhecidas, propondo-se a lutas desvairadas. São duzentos homens que seguem Juan Nuñez de Prado no seu caminhar pelo Continente. Seres arrancados de suas raízes e elas, no entanto, despontam no traçar das ruas da cidade, no construir das casas, nos lampejos das lembranças que por vezes irrompem.

São cravos, são violetas, são rosas, trazidas da Espanha como as sacadas, os tetos mouriscos. Como essa canção se espalhando, um distante reflexo de Além-Mar, algo semelhante ao bufido do touro a açoitar os cascos contra a areia ensolarada.

Para Juan Nuñez de Prado, por vezes, é um breve recordar: a imagem da sacada de seu quarto em Badajoz; seus dezoito anos, livres, seu falar sozinho pelo campo, chamando os meninos que brincavam nas messes e nos vales, aprontando a funda para atirar pedras que se afundavam no calor, no trigo, nas flores que revoluteavam rotas.

Na narrativa, essa efêmera volta ao que ficara atrás, emerge, de súbito, na canção repentina que é escutada e faz lembrar a praça de touros; nesse dizer dos muitos homens que desejaram partir do Velho Mundo, na volta de uma imagem do passado e, sobretudo, na surpresa dessas flores que falam.

É no texto em que se confundem as vozes de uma primeira pessoa plural: uma pertence ao conquistador (as flores, os cravos, as violetas que trouxemos de Los Reyes são flores da Espanha) e a outra às próprias flores (somos espanholas, Juan, como tu, como as ruas, como as sacadas que desejas edificar. Raro exemplo de um recurso narrativo onde as informações e as vozes se acrescentam sem fronteiras – falam os humanos, falam as flores – num enovelamento que somente irá se elucidar algumas linhas adiante.

Assim, embora no segundo capítulo de El hombre que trasladaba las ciudades cada lembrança do passado seja rara e breve, sua presença, ainda que passageira se insere no relato, mantendo viva uma relação do passado com o presente certamente delineadora de uma visão de mundo que também irá direcionar este ser e este estar dos espanhóis no Continente.

domingo, 5 de outubro de 1997

Os verbos da Conquista : o olhar.


Em 1973, a Noguer de Barcelona, publicou El hombre que trasladaba las ciudades, um romance construído a partir das Crônicas da Conquista da América. Carlos Droguett, sem se afastar da verdade histórica contida nesse relato oficial, o refaz, dando-lhe vida e criando uma das mais belas e perfeitas obras da Literatura Hispano-americana. Uma expressão rara, como que feita somente de achados, um sapientíssimo uso dos recursos romanescos fazem dessa obra um impressionante itinerário onde predominam linhas sinuosas e repetitivas cujo avançar e recuar permite vislumbrar o universo desconhecido que os espanhóis cheios de sonhos e, perdendo-se no tempo, quiseram conquista.
 

  A cidade de Barco foi fundada por Juan Nuñez de Prado, diz a Crônica da Conquista. Recebera essa incumbência do Vice-Rei do Peru e, com duzentos homens, se lançara à aventura pelas terras do Continente. Ameaçado pelos espanhóis do Chile, quer salvar a cidade, mudando-a de lugar. Na primeira mudança deixa a forca e os enforcados, demonstrando ser sua vontade, exercida em nome do Rei da Espanha e de Deus, a Lei. No segundo capítulo da obra, a mudança é um recomeço onde alguns verbos se constituem a expressão de um universo interior que, estreitamente, se entrelaça com as agruras do cotidiano da Conquista.

 

          Juan Nuñez de Prado se move na cidade a meio construir. Escolhera o lugar para assentá-la e já erguiam as casas, já se desenhavam as ruas e praças quando inicia sua nova mudança. Então, diante de seu olhar é um mundo de ação que se mostra, um mundo efêmero: o céu que se ilumina para que ele possa olhar a chuva; o sol a polir as pedras, a deixar brilhantes as bandeirolas e os galhardetes; o vento a açoitar a garupa dos cavalos, a fazer ondear as bandeiras; a água, correndo na mata; os cavalos e seus relinchos desesperados ao serem arrastados pela torrente; as ovelhas, tropeçando nas carretas; a cidade se desfazendo.

         Juan Nuñez de Prado olha os móveis que se afundam na chuva. Brilhando nos charcos, as janelas e as portas e os balcões e a torre da igreja. Olha a cidade, suas casas esfumando-se na luz do crepúsculo, a presença da igreja cheia de árvores novas. Diante dele, se perdendo, os arcabuzes, as laranjas vermelhas e perfumadas, a roupa, os bordados, as fazendas. E, sempre em movimento, carregadas, as carretas indo pelo campo, bamboleando-se docemente, levando pedaços da cidade. E outros, pedaços, Juan Nuñez de Prado bem os vê, são levados nas costas dos índios, são arrancados pelos espanhóis.

          E, momentos são fixados pelo seu olhar: a água escorrendo, lavando, minuciosamente, os pés enormes de um índio; os soldados dormindo perto do fogo, entre as crinas dos cavalos; a escada pela qual desciam e subiam soldados aterrorizados, buscando adagas e punhais; esse miserável soldado coxo a caminhar entre os escombros; os olhos de um outro que fora condenado a morrer.
         
          Quando chega o capitão Miguel Ardiles com o que ele pensara serem os reforços que precisava,Juan Núñez de Prado olha para o soldado ensanguentado que se levantava orgulhoso na sua padiola e no chão, alguém deitado num tugúrio, só os lábios já cárdeos, a mão morta, uns cabelos gelados, via as roupas abastardadas, o braço moído no qual escorria o sangue e a sujeira, os joelhos despedaçados que brilhavam humildemente ao sol, uns pés enormes, tumefactos, se apertavam contra a cintura de um cavalo, as moscas desciam suave sobre eles, viu umas roupas sujas, umas mantas, umas calças chamuscadas, uns borzeguins desfeitos e úmidos, viu os peitos afundados nas armaduras velhas, emboloradas....
         
            É um olhar que se pousa naquilo que o rodeia: o céu, o vento, a água, os animais, a cidade, as carretas, os índios, os soldados – e que por esse olhar é mostrado numa aproximação do espaço e dos seres que o povoam, das misérias e das injustiças as quais eles se acham subjugados que humaniza a História da Conquista ao se afastar do herói para mostrar as vítimas.
          
             Porque foi em vítimas que eles se transformaram, esses soldados do Rei quando se adentraram no Continente em busca de riquezas e de Poder.

domingo, 28 de setembro de 1997

O índio pássaro


           É um romanceiro de nossos dias. Publicado em 1984, doze anos depois teve a sua segunda edição. Um pequeno exemplar de delicada diagramação, cuja capa traz um belo desenho da autora: paisagem de ruas que se encontram, de tetos amontoados sobre os quais reinam as torres brancas da igreja.



          Romancero de sur y viento encerra treze romances, dedicados aqueles que foram a semente do que fomos. Inscrevem-se nas falas populares, resgatadas por María Cristina Casadei que os transforma em versos feitos de ritmos perfeitos e harmonias. Neles se sucedem amores e tristezas. Desenham-se as silhuetas de personagens que fizeram a História de Carmen de Patagones, breve cidade do extremo sul do Continente. A história que fica à margem dos manuais e perdura nesse contar que se renova em cada geração diante das paixões infelizes, das mortes que ceifam vidas recém começadas.

          Paixões que se querem completas como as de Mariquita e Edundo, como a de Adolfo e Isaura; sentimentos que submergem em penas de ausência e solidão; morte que busca o pescador no seu ofício, a mulher vítima do ciúme e busca na guerra o guitarrista e leva o índio insubmisso a procurá-la.

          Das vozes coletivas se alimenta María Cristina Casadei e sua ímpar veia poética faz desabrochar, outra vez, a vida. Cada verso que escreve transborda de um lirismo que, sobretudo, se enraiza nessa natureza de ventos e de mar onde se encrava Carmen de Patagones. Esboços de salgueiro, de tília, de malva, de grilos, de frutas. O vento, a lua, o sol, alguma estrela e se desenha o espaço, se instituem os ritos. De beleza triste o de Cumpa, índio-pássaro.

          A conquista está finda e o espaço indígena já vazio, Cumpa vai para o mundo dos brancos. Já nunca mais será livre. / Alguém o esvaziou por dentro. / Mudaram-lhe a paisagem. / Amordaçaram seus ossos. / E a pele foi mortalha / de um ontem que já é lembrança.

          Na imensidão da estância não é um homem livre como fora noutros tempos. Peão, sobre seus ombros cavalga / a dor de um povo inteiro. Para libertar-se, quer voar e se lança de qualquer lugar, dos montes, dos barrancos, cada lugar é uma excusa para remontar ao céu. Ninguém entende esse afã e, chamado de louco, vaga entre o mundo perdido e o mundo que não entende, desejando em insanos vôos, reconquistar a identidade que os que lhe queimaram o grito, lhe roubaram o deserto, os donos da conquista tinham violentado. E ali fica, vencido e pungente com sua dor.

          Nos versos de María Cristina Casadei que o relembram é como se muitos dos homens do Continente encontrassem ali, também, desenhado o seu destino: esse estar perdido em meio às usurpações.t
  

domingo, 21 de setembro de 1997

Surpresas

           Três rústicas pautas desenhadas sobre um fundo claro. Na do meio, uma clave de sol e uma clave de fá e, entre a primeira e a terceira linha superiores, do lado esquerdo, um amanhecer que vai se tornando dia até se transformar em noite. No centro, um minúsculo umbu. É a discreta e sugestiva capa, autoria de Caulos, de Concerto campestre.

           Como os outros romances de Luis Antonio de Assis Brasil, exceção feita de O homem amoroso (1986), a ação se passa em tempos passados, entre a Revolução Farroupilha e a Revolução Federalista. Um período de paz nos campos gaúchos que fez possível a existência dessa orquestra, a Lira Santa Cecília, na fazenda do Major Antônio Eleutério de Fontes. Rico dono de terras e charqueada, ao perceber o imenso prazer que a música lhe proporcionava, decidiu-se a manter os músicos e um maestro. Ouvia-os, embevecido, compartilhando com os seus e os amigos, especialmente convidados para os concertos festivos, sob o umbu.

           Mas os sons que o Maestro consegue tirar das inábeis mãos dos músicos e de seus rudes instrumentos que o encantam, também encantam a sua filha Clara Vitória. Ela se deixa prender de paixão pelo homem que é tão diferente daqueles que a rodeiam.

           Um amor tão impossível – castas, preconceitos medeiam entre eles – quanto impedi-lo de existir. E a sua história se apresenta cheia de fascínio porque a arte de bem narrar é muito própria de Luiz Antonio de Assis Brasil.

           Flui mansa a narrativa de Concerto campestre e, surpreendentes, nela se inserem informações, indicando que muitas outras haviam sido, até então, subtraídas. Anunciam, em fim de capítulo, uma situação de crise que irá determinar a continuação do relato sem que, no entanto, ocorram mudanças no seu ritmo.

           O primeiro capítulo dá conta da chegada do Maestro na fazenda e de seus progressos frente à orquestra; brevemente, de suas relações com a família do estancieiro. Nas últimas linhas, informa, e quase nada o fizera prever, da paixão de Clara Vitória por ele.

           O segundo capítulo retoma o dia em que o Maestro chegou para narrar dos primeiros interesses de Clara Vitória: espiara pela fresta da cortina enquanto ele, sentado, esperava que o fazendeiro lesse a carta que trazia.

           Os repetidos encontros e as palavras trocadas e o perceber-lhe os movimentos no quarto ao lado vão arquitetando os sentimentos. Nas últimas linhas do segundo capítulo, a inesperada revelação: o esgueirar-se de Clara Vitória fora de casa para entrar no quarto do Maestro e lá ficar até de madrugada. Então, novamente, a volta da narrativa para um momento anterior e, assim completar o que não fora dito e, outra vez, tratar dos sucessos da orquestra para terminar o terceiro capítulo com uma nova revelação.

           São três momentos da narrativa em que, primeiramente, ex-abrupto, é anunciado um fato inesperado, como que um relâmpago em céu tranqüilo, levando a um retorno no tempo e a um relato linear que o irá completar, mostrando o quanto Concerto campestre é um romance de exímia construção. Também feita de alguma graça, de alguma crítica, do sábio dizer dessa música que se eleva nos campos, da sedução do personagem feminino, buscando seu destino para, então, aceitar-lhe os desígnios.

 
           Iniciando-se, como romancista, em 1976, com Um quarto de légua em quadro, nesses vinte e um anos passados, Luiz Antonio de Assis Brasil publicou mais onze romances. Cada um deles, reafirmando qualidades de narrador sempre a se renovarem. Concerto campestre que a L&PM de Porto Alegre acaba de lançar, bem o comprova.

domingo, 14 de setembro de 1997

O anseio

           O livro tem por título Las piedras del cielo e foi publicado pela Losada de Buenos Aires, em 1970, um ano antes de ter recebido, Pablo Neruda, o Prêmio Nobel.

           É uma pequena obra feita de breves poemas que se inspiram em algo inusitado: as pedras. Fantasiosas, como as do primeiro poema, quando são pedras aladas, pedras que possuem voz, pedras que se transformam em pomba, em sino, em vento. Verdadeiras, aparecem em outros poemas e se constituem, então, pedra rolante, filha do vulcão, pedra dos caminhos, pedra polvorenta. Muitas e muitas vezes, motivo de achados estilísticos: Amêndoa azul, manancial de gotas prisioneiras, gota de fogo ou de orvalho.
           Sobretudo, a pedra é a matéria com a qual o poeta se relaciona afetivamente. Constata trajetórias, caminhos de transformação ao se referir à árvore calcinada que, o passar dos séculos faz tornar-se uma pedra; ao pedaço de vulcão desprendido da montanha que navega pelo rio e chega ao mar feito pureza.

          São versos que meditam sobre esse renovar constante da natureza com inesperadas imagens: Aquele mel, aquele tremer do mundo, / aquele trigo do céu / se elaboraram até se converter / em sol tranqüilo, em pálido topázio.

          Então, surgem as comparações entre os homens e as pedras.
          No poema XVII, os dois primeiros versos se constituem uma assertiva – Mas não atinge o homem a lição: a lição da pedra – da qual se irá originar um paralelo: a pedra feita do fogo, da água, da árvore, desperta como uma nova rosa endurecida; o homem, frágil podridão, veias jacentes, destruído.
          Daí, aparecer, por vezes, nos poemas que louvam as pedras (pedra pura, sol tranquilo, prodigioso testemunho, palavra muda da terra) um desejo de identificação traduzido nesse despertar no fundo das pedras, nesse querer estar junto delas, nesse antecipar anseios de voltar a ser mineral.
          É um querer aproximar-se de um ser perfeito, trabalhado pelo tempo e pelos mistérios da natureza que a natureza humana não lhe proporciona.
           Então depõe: Pedra fui: pedra escura / e foi violenta a separação, / uma ferida no meu alheio nascimento: quero voltar àquela certeza, / ao descanso central, à matriz / da pedra matéria / de onde não sei como, nem sei quando / me desprenderam para me desagregar.

domingo, 7 de setembro de 1997

O valor da pesquisa

          Como “lembrança”, patrimônio ou herança foi comum que em algumas famílias, os filhos, com certo grau de escolaridade, solicitassem cópia da fala dos pais. Fala cuja gênese foi a pesquisa que Arlene Renk elaborou com vistas a sua tese de doutoramento, inscrita no Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, no museu do Rio de Janeiro. Sob o título “A reprodução social camponesa e suas representações.
 
           O caso Palmitos – SC”, se agrupam seis capítulos, baseados numa pesquisa de campo, onde foram ouvidas cinqüenta pessoas de diferentes idades, diferentes posições familiares e diferentes posições na comunidade.

          São depoimentos espontâneos que traduzem uma visão de mundo discernível a partir de situações concretas: parentesco, herança, patriarcalismo, religião, honra familiar, trabalho, propriedade. E todo um mundo se revela, estabelecendo uma identidade, a do colono e delineando-o como um grupo social, para o qual as lides agrícolas eram a encarnação da liberdade. A liberdade buscada pelos antepassados que chegaram ao Brasil vindos da Europa, a fugir da servidão e que, no novo país, passava a significar também o progresso e pioneirismo. Uma busca renovada que leva os colonos, quando falta a terra, a novas migrações para garantir a sua condição camponesa e que explicará o processo de povoamento de Palmitos.

          Nessa trajetória, seguida pela pesquisadora, inscrevem-se as histórias individuais ou familiares: peças que compõem o grande painel de um fenômeno social que Arlene Renk registrou ao trabalhar sobre a continuidade das relações sociais no movimento de acesso à terra, obedecendo ao desejo de permanecer colono. Desejo, que irá determinar as leis de herança. Nelas, se evidencia o imperativo da não fragmentação das terras e daí os diversos modos de conservá-la no seu todo o que representa uma dificuldade diante do número de herdeiros e a conseqüente partilha não igualitária. Sobretudo, no que se refere às filhas que, dificilmente recebem um pedaço de terra porque num primado masculino a vontade paterna se constitui uma lei e como tal é seguida como deve ser seguido o costume de passar para os filhos o que foi recebido dos pais, assegurando assim a continuidade na fixação à terra: um ir no rastro do pai que acaba sendo, nos tempos mais recentes, interceptado por inúmeras razões: questões de herança, reavaliações de concepções, ampliação de horizontes, transformação que o progresso impõe no viver cotidiano. É quando a condição camponesa será percebida, não mais como uma vocação, mas como uma imposição: Se no modelo tradicional os penalizados, as vítimas eram aqueles que deveriam partir, parece que hoje, as vítimas seriam os que devem permanecer, os que não podem sair.

          Sem dúvida, o mundo mudou. E, assim, a vida camponesa não poderia permanecer à margem de todo um processo que se instaura no país, inserindo-se num contexto, qualificado de crise na qual se insere, também, o modo de obtenção de terras que passa a ser o das ocupações.

          Então, dos depoimentos, emergem as vozes dos líderes dos movimentos. São palavras tão emocionantes como aquelas que tratavam do viver cotidiano, da trabalhosa lide na terra. Um tom sentido e verdadeiro que a pesquisadora recupera e do qual não está ausente a denúncia das práticas ultrapassadas e injustas que já uma tomada de consciência e as transformações sociais vão ajudando a neutralizar.
 
          É quando se faz necessária essa leitura que o trabalho acadêmico de Arlene Renk permite realizar: a dos testemunhos trazendo a emoção da história vivida e a visão instigante dos questionamentos sempre tão desejados quando é preciso que se façam mudanças. Porque além das qualidades inerentes a estudos de tal natureza, o seu trabalho possui o valor de se fixar nas questões brasileiras. O que, aliás, deveria ser objetivo de todos os que se habilitam a pesquisas no Brasil, quer sejam elas financiadas ou não por órgãos