sexta-feira, 8 de maio de 1987

As artes clandestinas de Miguel Littin ou o direito de estar na própria casa

            Se existissem parâmetros para medir a façanha de colocar um ditador no mais profundo ridículo, a vitória caberia, certamente a Miguel Littin, o cineasta chileno  que realizou, em 1985, a proeza de entrar no seu país, nele permanecer  e  dele sair sem que as forças da repressão dessem por isso. No entanto, o que realmente passa a ser importante nessas seis semanas de risco, vividas pelo Diretor de cinema, é um significado que ultrapassa a extraordinária aventura que foi filmar o que ele bem quis sob os olhos de um regime que se quer eficientemente opressor.
            A emoção originada da leitura do livro La aventura de Miguel Littin clandestino en Chile    (Ediciones El País, Madrid, 1986), independente da genialidade de quem a escreve, o colombiano Gabriel García Márquez,  é a de um romance policial ainda que, no caso, se saiba, de antemão, o seu final. Seria o que se chama uma leitura lúdica, apenas prazerosa não fossem as reflexões que, obrigatoriamente, se lhe seguem. Antes de mais nada, imaginando como se instituiu Primeiro Mandatário do país aquele que, no livro, acaba recebendo trinta e dois mil e duzentos metros de “rabo de burro” que são os trinta e dois mil metros de filme que Miguel Littin rodou no desejo de documentar a ditadura.  Logo, indagando sobre esse direito (entre outros) que tal  mandatário se atribui para decidir, demiurgicamente, quais dos cidadãos do país nele podem viver e quais aqueles que, embora aí tenham nascido e crescido sem outro crime que o de pensar e o de querer estruturas diferentes para a sociedade, devem  ser banidos em nome de razões sempre inexplicáveis.
            Evidentemente, pensar essas questões levaria a refletir, também, no significado da expressão “desobediência civil” que é como se chamaria a entrada no país daquele que  tem esse direito negado. E Miguel Littin não o possui. Não tem o direito de rever os lugares de sua infância, as ruas onde passeou;  não tem o direito, simplesmente, de viver perto de suas raízes. Porém, contrariando as ordens, ele retorna para olhar e, mais do que qualquer coisa, para registrar esse olhar, desejando que mil olhos possam também  ver o Palácio de la Moneda reconstruído, as pontes sobre o rio Mapocho, os rostos tensos dos guardas e daqueles que ficaram exilados na sua própria terra. Para que possam ver a casa de Pablo Neruda em Isla Negra.
            Imagens comprometidas com o seu ideal de antes, agora reafirmado, que estão sendo mostradas ao público sob o título  “Actas de Chile” (mais do que uma lembrança de Actas de Marussia). Nelas, a aventura de Miguel Littin, contada por Gabriel García Márquez, alcança outra dimensão ao conter a paisagem de um drama que ainda não terminou, ao conter as figuras – ou farsantes ou heróis – que desse drama fazem parte.        
            Para o leitor das aventuras de Miguel Littin como para o espectador do filme  que  ele  realizou, entre muitas outras, permanecerão perguntas que, talvez, somente alguns poucos responderão: o que significa, exatamente, “desobediência civil”?  E, no Continente, quem, exatamente, a está cometendo?

sexta-feira, 1 de maio de 1987

A voz de Teobaldo Noriega: desenvenenaremos a paisagem

            Versos de ternura e de blasfêmias, de erotismo e de saudades. Poeta d e recente voz tornada pública mas de um sábio poetar como se os anos fossem muitos: Teobaldo Noriega, nascido na Colômbia em 1939, arguto e sensível crítico da Literatura Latino-americana.        

            Em 1983 publicara La novelística de Carlos Droguett:aventura y compromiso pela Editorial Pliegos de Madrid a mesma que no ano seguinte lhe edita  Candela viva, seu primeiro livro de versos. Não, porém, um livro de poeta principiante, embora seja o princípio de uma poesia que busca no choro, na raiva, no grito os novos símbolos. Símbolos que se ancoram num dizer grandemente lírico, grandemente simples. Palavras que fluem com a limpidez do sincero sem retoques. Dizendo do destino do homem ( engole o teu quinhão), de suas dúvidas e certezas. Da vida ( Pode-se amar a vida o que já é suficiente) e da poesia. Dizendo do amor. Quando lhe é suficiente a lembrança da mulher amada  no belo poema “Fué sencillo”; quando o remorso de servir um vinho amargo à companheira é por si só uma dor sozinha. Ou, ainda, quando trata do amor que é violento encontro à espera de muito mais ou tão profundo que se compraz no ritual inusitado  dos amantes sem pudor. Um amor reafirmado na busca e nos encontros. Que segue as pegadas inexistentes, um pai perdido em qualquer sombra de seu corpo ou em qualquer misterioso canto da memória, presença desejada que encontra na marca de outros passos, no trato de outras mãos. Para perder de novo. Um amor carregando presença na saudade da mãe, distante, perdida e reencontrada nos mil regressos entre o beijo e a fuga.

            São sofrimentos que se esparramam nas páginas em branco: Esta folha tão branca / na qual escrevo agora porque não agüento mais. Porque sofre, simplesmente ou porque a vida já o marcou bem forte na infância rodeado de abandono e na juventude transformada pelo sonho. E, então, desse interior que se estraçalha e se reconstrói, o olhar para seu espaço primeiro no qual se mesclam as muitas dores do ritual tairona, cristão e africano,  a pátria da escola primária prenhe de histórias de constituições revisitadas e de nomes hierárquicos e de lutas fraticidas, de punhais e de balas, de vis esquecimentos.

            E o sentir dos outros a delinear o sapateiro, o vendedor de guarapa, o cego negociante de loterias, a prostituta, o maricas . Um sentir que se espraia no desejo, na esperança de fabricar sandálias novas  tirando-as de antigas baionetas, de extrair o sol do objeto que já foi granada. Como se acreditasse, realmente, na chegada desse dia glorioso em que eles, os colonizadores se comerão, em que mijaremos nos seus túmulos. Catarse necessária ( e quão inofensiva) para aqueles que esperam (ainda) um destino digno para o Continente. Espaço que resiste aos maus tratos e às maldades dos usurpadores que ao longo de gerações usufruem de riquezas que deveriam ser de todos.

            E, tanto quanto o desabafo é urgente, é urgente limpar, purificar. Um ritual novo.
           em que o lenhador não lenhe
nem o pescador punha as mãos no rio
porque por tarefa comum
desenvenenaremos a paisagem.

sexta-feira, 24 de abril de 1987

O Chamado


Um dos cavalos, aquele, precisamente, que depois lhe serviria para fugir, tinha se plantado diante de sua janela e a lâmpada lhe iluminava o focinho loiro, sensual e aristocrát6ico        aristocrático, quase humano  batia com ele nos vidros para chamá-lo e como o cavalo olhava para ele, não para ele mas para seu trabalho, seu destino, as ferramentas humildes da profissão, a mesa, a cadeira, a sovela, a lima, ele começou a rir. Eloy, Carlos Droguett.



            Isto é esplêndido, é preciso publicá-lo, dizia o padre Escudero para Carlos Droguett ao telefone  depois de ter lido os manuscritos de Eloy. Uma exclamação que jamais poderia ter sido prevista pelo menino que na escola de padres apresentava, semanalmente, a sua composição para o professor. Composição que seria juntada do chão onde o professor a jogava ao invés de entregá-la, como fazia para os demais alunos. O professor era o padre Escudero. Entre esse relacionamento difícil entre aluno e professor e a amizade que mais tarde iria se estabelecer entre os dois, a partir de um encontro casual na rua, já existiam as inúmeras crônicas e contos publicados, a cada semana, em La hora, jornal de Santiago do Chile que hoje não existe mais.

            No entanto, apesar de todo o prestígio de que gozava o padre Escudero nos meios editoriais da época, Eloy não foi publicado no Chile. Algum tempo se passou e, num domingo, Carlos Droguett vai procurar seu antigo professor em busca de um conselho: Eloy deveria estar entre as obras que iriam concorrer ao concurso anual da Seix Barral de Barcelona? Na biblioteca “enorme, bela, de móveis de caoba inglesa, uma biblioteca com corredores na parte superior aos quais se ascendia por uma escada em caracol, Carlos Droguett escutou uma resposta afirmativa. Sim, Eloy deveria ser mandado para Barcelona.

            O romance foi enviado, então, inédito no Chile e, entre alguns jurados, que lhe desejavam o primeiro lugar, foi defendido até o último momento. Obteve o segundo e a publicação imediata. Seguiram-se as traduções. Primeiro, para o italiano  logo para o alemão. Mais tarde para o dinamarquês, o polonês e o tcheco. Em francês apareceu  pela Maspero, em 1977, e, em português pela Codecri em 1982.

            Eloy foi escrito como um conto, resultado da emoção de Carlos Droguett ao saber da morte do bandoleiro chileno nos campos vizinhos de Santiago numa madrugada de 1941. Emoção guardada por muitos anos e que, finalmente, foi expressa, de uma só vez, em uma semana. Escreveu o que sabia da morte de Eloy pelos documentos oficiais e o que imaginou terem sido as suas últimas horas de vida: duas ou três horas nas quais Eloy sofre a aproximação do cerco que irá culminar na sua morte. As mesmas horas em que sofrerá, também, o assédio das lembranças da vida de antes: de sua mulher, das outras que possuiu, dos perigos enfrentados, das andanças de fugitivo. E,  repetidas vezes, impressionante, o momento de uma noite de chuva em  que abandonou  seu ofício  para seguir o seu novo destino, o de marginal perseguido. Trabalhava no seu banquinho de sapateiro do qual não teria se afastado  se o cavalo não tivesse se detido da porta. Esse cavalo veio para me buscar ele acredita. No entanto, antes de vê-lo branco, lustroso e belo o seu olhar foi para a espingarda, uma espingarda que, ainda, não tinha matado ninguém. O cavalo o salpicou de chuva e de baba, bateu com os belfos no vidro para que se apressasse, empurrou a janela  e relinchou com suavidade. Fez com que adivinhasse que devia partir. E ele atendeu ao chamado, abandonou seus honestos instrumentos de trabalho, a sua vida de artesão pobre para penetrar no espaço daqueles que não tem lei. Morreu crivado de balas. Era madrugada e fazia frio.

            Personagem de ficção, também foi crivado de balas e morreu com o rosto colado na terra, rodeado pelas botas que o perseguiam. E conquistou um outro espaço  de onde é mais difícil desaparecer, situado que está na emoção provocada pelo texto de Carlos Droguett: um chamado para se debruçar sobre o homem que, esgotado pelo trabalho e pelas injustiças escolhe a marginalidade. Aquela que, pelo menos, lhe concede uma ilusória liberdade, um ilusório poder de decisão. Isto é, um chamado para entender que a grande maioria dos homens do Continente americano está enredada em teias de opressão e de miséria que não lhe permitem discernir quais os verdadeiros caminhos de libertação.

sexta-feira, 19 de dezembro de 1986

Sobre Resistências

            No Chaco argentino existe uma cidade de nome Resistência. Está situada na planície, na terra vermelha. Suas ruas, arborizadas, muito largas, têm largos canteiros que, um dia, receberam uma função hedonística. Neles, pousam, hoje, peças de pedra e madeira e concreto e bronze que artistas argentinos modelaram e mecenas pagaram para ostentar na frente de suas casas o belo e, eventualmente, o testemunho da riqueza. Foi Algo Boglietti quem idealizou esse museu sem portas e que  uns anos antes havia dado vida a uma velha casa da rua Brown que foi se tornando ateliê de artistas, um espaço para reuniões informais, para encontro de amigos.

            Das tertúlias que, então, se promoveram, dos encontros e amizades, do gosto pelas coisas e da capacidade de nelas ver significados, surgiu “ El fogón de los arrieros”. Uma casa de moradia, receptáculo de livros, fotos, discos, um teatro de marionetes, armas antigas, tecidos, um piano, terracotas de Victor Marchese, flechas, cuias, cachimbos, artesanato indígena : uma infinidades de objetos, os mais díspares que representam um valor artístico ou um rasgo de humor, numa dualidade significativa. Entre muitas outras coisas, a hesitação que, eventualmente,  pode tocar – e hoje cada vez mais freqüente e profundamente, - o intelectual, o artista latino-americano que se debate entre as suas (não ) raízes e a influência do colonizador que por superposição lhe moldou os gostos. Prova desse dualismo é a presença, numa das paredes da casa-museu, entre a de  outros remetentes, igualmente emolduradas, de uma carta de Jean Paul Sartre. Vem datada de Paris, um 18 de novembro de 1949, resposta a alguém que, de Ël fogón de los arrieros”  pede permissão para representar as suas peças. Em papel timbrado de Les temps modernes, escritas à máquina, as palavras: “ Senhorita. Agradeço-lhe a amável  e longa carta e o interesse que demonstra, assim como os seus amigos do “Fogón de los arrieros” pelas minhas peças. Dou, com prazer, a minha autorização para que representem qualquer de minhas peças na sua cidade de tão belo nome de Resistência. Desejo a todos muito sucesso e lhes envio minhas melhores amizades. Jean Paul Sartre.” Nada mais formalmente cordiais do que essas palavras. Ao subscrevê-las, Sartre tinha quarenta e quatro anos, importante obra publicada e seu teatro se constituía de Les mouches, Huit clos, Morts sans  sepulture, Les mains sales. Nesse ano de 1949, ele dirigia Les temps modernes e para ele se voltam os olhos dos intelectuais e beletristas que, no “ El fogón de los arrieros”, querem fazer teatro.

            Quatro anos se tinham passado desde o término da Segunda Guerra Mundial. Ex-prisioneiro dos alemães, certamente para Sartre, a palavra resistência não poderia deixar de ter a conotação precisa, pejada de atos heróicos, de vidas oferecidas a uma liberdade que fora ceifada pelas ideologias norteadoras do conflito mundial de 39-45. O significado que ainda conserva nos dias de hoje para os europeus que viveram a guerra e para aqueles  que tentam preservar a lembrança dos que se opuseram à opressão e optaram pela difícil luta subterrânea contra as ideologias extremistas. E é provável que Sartre tenha ignorado sempre que o tão belo nome de Resistência se originou de atos colonizadores ou seja de um ato governamental ao nomear a Comissão Exploradora  com o objetivo específico de escolher um lugar para fundar uma povoação e da luta de um grupo de colonizadores contra os aborígenes ao se instalarem próximo ao local onde existira a redução de São Fernando. Foi essa luta bravia pela posse da terra chamada de resistência ( os homens brancos resistindo aos índios) e em seu louvor, denominado Resistência o novo núcleo urbano que nascia. E é provável que Sartre tenha, também, ignorado que ao redor da cidade em que reviviam  (terão revivido) suas palavras existia  uma outra resistência: a dos povos espoliados. A resistência vencida. Aquela que os aculturados esquecem. Cujo final trágico as cifras – sem possibilitar a reconstrução do massacre, a evidência da extinção de um povo, a descrição dantesca do detalhe, do sacrifício de inocentes que eram os donos da terra – friamente comprovam.

            Dessas resistências passivas da América entregue, da América dessangrada, estariam conscientes os repetidores latino-americanos de Sartre? Na verdade, nesta América de fabulosas ditaduras, grandiosas matanças, formidáveis torturas, longuíssimas prisões, exílios eternos e mortes prematuras, irreversíveis ignorâncias, carências atávicas, fomes demolidoras, muitos anos passaram. Mas, para  que o advento de um novo olhar sobre a vida e sobre a morte no Continente americano, enfim, surgisse, foram necessários esse tempo transcorrido, os muitos livros, as muitas mutações. Resistência novas, latentes em indivíduos ou germinado em grupos, então se delineiam:possíveis ou impossíveis, violentas ou pacificamente bem intencionadas, expressas pela palavra ou pelo silêncio. Resistências que não defendem, apenas e primitivamente, o território geográfico infestado mas talvez, antes de mais nada, o direito de se opor à ocupações quaisquer que sejam elas. Isto é todo um processo de amadurecimento de exasperante lentidão cujos resultados, como redenção de uma maioria sufocada são esperados, desejados, procurados por aqueles que a custo de muito esforço estão tentando ou conseguiram se descolonizar.

sexta-feira, 12 de dezembro de 1986

Sobre romances e romancistas

            Guiados por editores que procuram refazer no Brasil  o sucesso conseguido em outros países de obras que muito pouco ou nada tem a ver com a nossa realidade, a grande massa do leitor brasileiro tem se alimentado de leituras de inquestionável mediocridade e que o tem mantido incapaz de possuir parâmetros para reconhecer qualidades inclusive, também, em outras manifestações artísticas como o teatro e o cinema, por exemplo.

            Assim, é de ótimo  augúrio ter acontecido, em  curto espaço  de tempo, como o testemunham as matérias sobre o assunto,  que apareceram em Leia e em Senhor,  o que se poderia chamar a descolonização espontânea do leitor brasileiro.

            E, nesse sentido, o livro O romance hispano-americano da professora Bella Josef,  em boa hora foi publicado.  Ao afirmar que hoje se inscrevem na Argentina, Brasil, México, Venezuela, Peru alguns dos romances mais importantes da Literatura Universal está anunciando uma verdade conhecida já há muitos noutros países mas, que, infelizmente, é ignorada pela maioria dos leitores brasileiros. Pois não é segredo para ninguém que a informação sobre o que se passa na América Latina e no resto do mundo, nós a recebemos através de agências noticiosas, em sua grande parte, pertencentes aos países industrializados que, ou ignoram o que aqui se passa no âmbito da cultura ou, o que é mais provável, não têm o menor interesse nas sua  divulgação. A publicação de autores do Continente americano que se inicia ao sul do Rio Grande não proporcionaria aos donos do poder, do saber e do possuir o lucro que se origina da venda  dos seus ( na grande maioria) nefastos “best-sellers”.

            Daí, se constituiu algo de muito importante essa visão abrangente de vários autores e obras que expressam diferentes épocas e diferentes espaços, proporcionada pela obra da professora Bella Josef. Ao oferecer o panorama do romance hispano-americano ou apresentar a sua evolução das origens até os dias de hoje, fica, também, evidente que estamos diante de momentos ficcionais – o romance políticos, histórico, “costumbrista”, sentimental, lírico, psicológico,  preciosista-escapista, indianista, regionalista, gauchesco, “ çriollista”- que se elaboram, desenhando contornos cada vez mais nítidos do homem e do espaço latino-americano.

            Dentre os autores que analisa, são  conhecidos no Brasil (uns mais, outros menos) porque já traduzidos: Miguel Angel Astúrias, Juan Rulfo, Gabriel Garçía Márquez, Mario Vargas Llosa, Julio Cortazar, Juan Carlos Onetti, Alejo Carpentier, Manuel Scorza, José Donoso, Augusto Roa Bastos, Manuel Puig, Carlos Droguett, Ernesto Sábato. Quase em igual número, outros (apenas uma presença feminina, a mexicana Rosário Castellanos) aos quais somente tem acesso um reduzido número de especialistas ou interessados na cultura Hispano-americana.

            Professora de Literatura Hispano-americana na Universidade Federal do Rio de Janeiro, conferencista e com vasta produção na Imprensa brasileira e do exterior, autora de História da Literatura Hispano-americana (Vozes, 1971) e de O Jogo mágico (José Olympio, 1980), ao publicar O romance Hispano-americano (Atica, 1986) Bella Josef não somente enseja a leitura de um excelente texto crítico sobre obras latino-americanas mas, oferece, também, aquele leitor já suficientemente amadurecido para realizar suas próprias escolhas ( desde que estas lhe sejam, é evidente, possibilitadas), um guia de leitura imprescindível para o conhecimento de um universo que devemos reconhecer, de uma vez por todas, que é o nosso.

sexta-feira, 21 de novembro de 1986

Estrela luminosa: Julia de Burgos

            A maior parte da população é mestiça, descendendo de negos e de espanhóis em Puerto Rico. Depois de pertencer quatrocentos anos à Espanha, em 1898, a Ilha foi cedida aos Estados Unidos do qual passou a ser, desde 1952, um estado Associado. Um status que lhe permite ver assimilados pelo rico país do Norte os seus muitos desempregados. Além dos empregos, tão necessários, os portoriquenhos recebem dos cidadãos norte-americanos, a alcunha de “cucarachas” (baratas) porque são escuros, sujos e prolíferos. Um termo que, segundo Henfil no seu livro Diário de um cucaracha   passou, por extensão, a designar,  também, a todos os demais latino-americanos. Então, é de algum modo surpreendente  ter existido alguém  que foi poupado desse rótulo: Julia de Burgos, nascida em 1914, um caso raro e efêmero de poeta. 
            .
 
            Como soe acontecer  na América Latina, onde a vontade de um poucos prevalece e faz com que o Continente se empobreça na perda de seus melhores filhos, Puerto Rico expulsou Julia de Burgos. Extirpada de sua terra, ela, a semente de tantos bons frutos, morre com trinta e nove anos. Em 1938, havia publicado Poemas en veinte surcos e no ano seguinte, Canción de la verdad sencilla. Quinze anos depois de sua morte, foi publicado El mar y tu.
 
            Em seus versos se misturam o lirismo amoroso com o patriótico, o protesto social com o político. Voz feminina que não se enclausura no detalhe bizarro, no onamatopáico, na temática do homem preto injustiçado pela escravidão ou cercado pelas suas seqüelas quando livre, impedido de possuir, de usufruir tudo o que os que possuem julgam apenas para si mesmo imprescindível. São poemas da negritude que extrapolam o modismo que marcou certa poesia latino-americana entre os anos 20 e 40. Poemas que explodem em infinitos pontos de luz . Um d eles que, criteriosamente, poderíamos chamar antológico, é o seu poema “ Ay ay ay de la grifa negra”. Inicia-se, inocente, a voz feminina a dizer de sua cor, de seus lábios, de seu nariz, de seus cabelos: mi estatua es toda negra. Simplesmente palavras que esboçam uma mulher negra, nada mais. Não necessariamente bela, nem necessariamente infeliz. Tampouco exótica ou perigosa ou fascinante. Apenas estátua negra, pedaço de noite onde relampejam os dentes brancos.  Num contar de histórias de outros tempos, principia a terceira estrofe: Dicen que mi abuelo fue el esclavo / por quien el amo dio treinta monedas. Para o cidadão de qualquer país escravagista (no passado ou no presente, pouco importa) onde a História Pátria não faz segredos destas compras e vendas, trata-se de uma leitura anodina, talvez prazerosa, que se prolonga ainda nos dois versos seguintes. Porém, logo, expressão de um sentir individual, afetivamente ligada a um antepassado,  se amplia, se quer parte de um espaço  chamado pátria: Si hubiera sido el amo, sería mi vergüenza: / que en los hombres, igual que en las naciones, / si el ser siervo es no tener derechos, / el ser el amo es no tener conciencia. Nesta passagem, em que resultam paralelos os destinos dos homens e das nações, como em tantos outros textos latino-americanos, há aquele claro anseio de justiça e de integridade. E, também, esperança, embora hesitante, de um novo povo para a América: raça negra fundindo-se em água clara, raça branca ensombreando-se na raça negra. Anseios que, um meio século depois, se estão concretizando-se nessas nuances, frutos da mestiçagem latino-americana,  nascidas espontaneamente ao sul to Rio Bravo.  Onde a América corre a ser trigueña: / a ser la del futuro: / Fraternidad de América.

sexta-feira, 6 de junho de 1986

Sobre um texto amoroso e mordaz


            Já estava correndo o mundo hispânico, editado pela Bruguera de Barcelona e El amor en los tiempos del Cólera quando foi publicado no Brasil na tradução de Antonio Callado.

            Na capa azul, tanto na edição da Bruguera como na da Record, incrusta-se  pequeno quadro

de uma paisagem tropical e vegetação densa. Em primeiro plano, iluminado, um cupido estira, sorrindo, a corda de seu arco, pronto para lançar a flecha na direção paralela à rota do pequeno navio que, no segundo plano, navega seguido de espuma e de abundante fumaça. Fumaça que o vento conduz para a esquerda da gravura, assim como conduz a bandeira amarela que aparece, então desfraldada. E’a bandeira da cólera, interditando o barco, afastando-o da margem. A bordo, Fermina Daza e Florentino Ariza, isolados para o prolongamento da vida que se atribuíram ao se conceder, finalmente, o amor.
            Digamos que este último romance de García Márquez seja, principalmente, um livro sobre o amor. Também poderia ser um livro sobre amores se eles não se desvanecessem diante do amor maior que nasceu de uma visão, cresceu de esperanças, fortificou-se de ausências e enfraqueceu para renascer, definitivo.           

            Tinha treze anos Fermina Daza quando emoldurada pela janela, foi entrevista por aquele que, dominado pelo olhar casual que recebeu, iria segui-la ao longo da vida. Caminhos paralelos, cruzados, interditados num  tempo  minuciosamente registrado por Florentino Ariza que, então, após esses  cinqüenta e três anos, sete meses e onze dias com suas noites, pode, por fim, acreditar que a viagem fluvial e amorosa não se limitaria a ser somente o desejo realizado, mas o início de algo que sempre desejou eterno, imenso,  para  a vida inteira.

            É o encanto da história de amor num relato prenhe de acontecimentos. Um narrador convencional que, por vezes, se deixa surpreender por um nós. Um narrador que assume, como seu, o mundo descrito, denunciando-se  em algo de seus personagens. Uma narrativa conturbada, de meandros e de aspirais que se desenovelam para mostrar-se sem segredos. Alguma vez uma situação imprevista, mudando a direção da narrativa; outra,  um vagar, lembrando Proust; ainda, um detalhe  a remeter a textos já conhecidos. Ao conto “ El amor más allá de la muerte”, por exemplo.
 
            Um mimético do real latino-americano, criando um mundo de maravilhas por meio de achados estilísticos   praticamente ancorados no uso sapientíssimo do adjetivo.

            Nas costas do caribe, a cidade de Fermina Daza e de Florentino Ariza é, como tantas vezes acontece na América, um misto de fragância de jasmins e de pestilência. Cidade dividida em castas – trabalhadores  mulato, sobrenomes sonoros – onde uma parte da população chafurda na lama e a outra imita a Europa, usando casaco de pele na canícula, obedecendo a mesma etiqueta do velho mundo nas noites dos espetáculos líricos. Costumes e ritos, anotados por um observador crítico e mordaz a fazer da leitura de Amor em los tiempos del cólera, caminhos de descobertas abrangentes e multifacetadas,trazendo no seu bojo um universo colombiano onde se  podem  mirar os outros universos  do Continente. No demais como sempre, García Márquez.